Filha de imigrantes libaneses. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi editora no Grupo Saída de Emergência. É cronista regular no Jornal Económico e Mensagem de Lisboa e mantém atividade como freelancer no mundo editorial. Foi dirigente no LIVRE e é atualmente assessora do gabinete da vereação do partido LIVRE na Câmara Municipal de Lisboa.

Janela indiscreta para o mundo da publicação de livros

A concentração das editoras, transformadas em chancelas de grupos editoriais, alterou o papel do livro. De objeto aprimorado, cuidadosamente selecionado e com conteúdo de qualidade, passou a produto de entretenimento, de atualidade ou simplesmente best-seller. Cada livro tem de alcançar determinado objetivo de vendas definido em folhas de cálculo para assegurar lucros imediatos.

Ensaio
22 Setembro 2022

Como se publica um livro? Qual o processo de submissão de um manuscrito a um editor? O que esperar? O que acontece desde o momento da produção até ao seu lançamento nas livrarias? São perguntas que abundam na mente de muitos aspirantes a escritores, leitores e curiosos. Não há muitas respostas que possam encontrar sobre este processo em Portugal, e embora muito material se possa ler na língua inglesa, tal dificilmente corresponde ao cenário nacional. 

Na verdade, a falta de transparência foi sempre uma das qualidades mais prezadas do mundo editorial português, determinada por questões de conveniência, e quando finalmente conseguimos abrir uma janela para os meandros da publicação, surge um cenário complexo e feito de grandes transformações na última década. Mas antes de falarmos de Portugal, analisemos com detalhe o retrato global da indústria e de como evoluiu até se transformar naquilo que é hoje.

A produção do livro começou por ser um processo caracterizado pela sua natureza intelectual e cultural até ao momento em que a lógica economicista do mercado transformou o mundo dos livros numa indústria mais centrada no lucro imediato, envolvendo dígitos na ordem dos milhares de milhões. Entre as maiores empresas internacionais que se dedicam à edição, o negócio de produzir livros assemelha-se hoje à linha de produção de uma fábrica em que são criados livros para diferentes públicos-alvo de diferentes faixas etárias, segmentados em categorias de acordo com determinados gostos e tendências. 

Para um editor numa grande casa editorial, é essencial saber detetar e antecipar tendências, mas não o faz sozinho, tem a ajuda de agentes literários, departamentos de marketing, equipas de assistentes editoriais e diretores comerciais que fazem as contas e lançam nas folhas excel os custos e previsões de venda de um livro de modo a determinar o seu break-even. Este é um resumo vago e obscuro do que se passa no mundo editorial graúdo.

Em 2008, ingressei no mundo editorial português como assistente editorial, numa editora (com estrutura familiar) recém-criada com o nome Saída de Emergência. Uma editora que, na altura, soube distinguir-se, criando uma identidade gráfica distintiva e uma linha editorial específica e orientada para determinados públicos-alvo. Outras editoras independentes começaram a destacar-se nessa mesma altura e que ainda hoje mantêm atividade ou foram, mais tarde, absorvidas por grupos editoriais.

Depois de um ano na editora, decidi escrever um post no blogue da editora sobre como publicar um livro. Usei um tom ligeiramente irónico e divertido e detalhei os vários passos a dar, numa altura em que praticamente não existia material de consulta sobre como submeter um manuscrito a editoras  portuguesas. Escrevi o post, guiada por pura lógica e bom-senso, na esperança de que nos poupasse às muitas perguntas que nos eram enviadas todos os meses. Para minha surpresa, o post tornou-se um dos mais lidos e procurados na blogosfera literária. Guardado e partilhado por todos os aspirantes a escritores, foi, durante anos, considerado um dos poucos links de consulta sobre a publicação de um livro em Portugal. Essa abertura e proximidade que fomos desenvolvendo com os leitores tornou-se uma das nossas marcas distintivas, sendo uma prática rara no meio editorial de então.

Ao contrário de outros mercados europeus, assistimos em Portugal à produção quase exclusiva de livros com tiragens pequenas e impressão cara, vendidos a preços elevados.

O presente ensaio surge numa altura muito curiosa em que os bastidores de uma das maiores editoras do mundo foram expostos num processo judicial que se iniciou no mês de agosto, nos Estados Unidos, movido pelo departamento de Justiça norte-americano contra o grupo editorial Penguin Random House, numa tentativa de impedir a aquisição do grupo Simon & Schuster. Qual a razão que leva a Justiça norte-americana a tentar impedir a fusão? 

A Simon & Schuster é umas das cinco maiores empresas editoriais nos EUA (sendo as outras quatro a Penguin Random House, a Hachette, a MacMillan e a HarperCollins), com um catálogo de centenas de autores, e controla parte da indústria, pelo que uma concentração da Penguin e Simon & Schuster fez soar os alarmes entre a administração norte-americana. Alega que uma concentração desta dimensão iria prejudicar a indústria e os autores, criando um monopsónio, ou seja um mercado em que há apenas um comprador para os produtos de vários vendedores. O Departamento de Justiça alega que a fusão das duas empresas faria com que os autores recebessem adiantamentos cada vez menores, sendo fortemente penalizados.

O julgamento que ocorreu ao longo das semanas de agosto deu lugar ao testemunho de várias personalidades do mundo editorial, desde editores a autores como Stephen King e agentes literários conhecidos como Andrew Wylie, questionados pela equipa legal do Departamento de Justiça norte-americano. Muitos factos de interesse foram sendo revelados ao longo das semanas. Os editores esforçaram-se por retratar o negócio editorial como uma atividade bastante aleatória e imprevisível, enquanto o Estado americano argumentava que os editores na verdade sabiam perfeitamente o que estavam a fazer.

A legislação anti-monopólio nos EUA é antiga e levada muito a sério. Dificilmente poderemos argumentar que o mesmo rigor e nível de preocupação é manifestado em Portugal por entidades reguladoras. Para o mercado português, diminuto e sem conseguir comparar-se aos números de um mercado como o norte-americano, seria de estranhar tanta preocupação pública com o bem-estar dos autores. Mas antes de abordarmos a era das grandes concentrações editoriais portuguesas, é importante recuar um pouco no tempo, até à década de 1990, para compreendermos melhor a natureza desta atividade e de como evoluiu ao longo das últimas décadas.

De forma semelhante em todo o mundo, a atividade editorial no século XX pautou-se por editoras de natureza familiar, de reduzida e média dimensão, com lucros razoáveis. Algumas alcançaram um assinalável nível de prestígio e sucesso com a publicação de obras meritórias. Em Portugal, algumas dispunham de um legado considerável acumulado, remontando ao tempo do Estado Novo (1933-1974).

O editor era soberano e não imperava a fé cega no mercado, nem existiam práticas em níveis agressivos como “marketing” ou “gestão de redes sociais”. Era um mundo fechado, discreto e conservador, empenhado em construir catálogos sólidos e de longa duração e, acima de tudo, pacato. Depois de iniciada a era Ronald Reagan e Margaret Thatcher, começaram a acontecer nos mercados anglófonos fenómenos de concentração editorial, sendo muitas editoras adquiridas por grandes empresas de entretenimento ou comunicação social. 

O editor André Schffrin, antigo editor da Pantheon Books falecido em 2013 e que publicou alguns dos mais importantes autores norte-americanos e europeus, descreve em grande detalhe esta situação na sua obra O Negócio dos Livros, onde faz um importante e fascinante relato de como os grandes grupos económicos absorveram e reconfiguraram a atividade editorial. 

No seu livro, publicado originalmente em 2001, refere:

"Pode dizer-se que o mundo editorial mudou mais nos últimos dez anos do que no século inteiro que lhe antecedeu. [...] Até há pouco tempo, as editoras eram, em geral, empresas familiares e de dimensão reduzida, satisfeitas com os lucros modestos produzidos por um negócio que ainda se considerava ligado à vida intelectual e cultural. Nos anos mais recentes, os editores foram colocados numa cama de Procrustes e forçados a obedecer a um de dois padrões: ou como fornecedores de entretenimento ou como veículo de informação. Isto deixou pouco espaço para livros com ideias novas e controversas ou para vozes literárias desafiantes."

O que ele descreve no seu livro demoraria alguns anos a ocorrer em Portugal. Com as sucessivas crises económicas que abalaram o país desde a adesão ao  Euro, e que afetaram muitas editoras históricas, estavam criadas as circunstâncias para que se concretizasse a primeira grande concentração editorial em 2007, pelo Grupo LeYa e que alterou significativamente as regras do jogo. Se para pior ou para melhor, depende do interlocutor.

De modo a compreender-se a natureza da evolução que se processou em Portugal, vale a pena pegar no exemplo das Edições Dom Quixote. Fundada por Snu Abecassis em 1965, em pleno Estado Novo, a editora desafiou o regime com muitas das suas publicações consideradas de esquerda e contrárias às posições de António de Oliveira Salazar. Após a morte prematura de Snu Abecassis em 1980, os herdeiros venderam a editora a Nelson de Matos (antigo diretor das editoras Arcádia e Moraes) que acabaria por convidar Manuel Alberto Valente para seu diretor editorial. Em 1999, a editora foi integrada no Grupo Planeta.

Com a LeYa foram introduzidas novas práticas de marketing. Ou as editoras pequenas corriam atrás ou observavam o mercado ser engolido por um grupo gigante.

Hoje a Dom Quixote está integrada no grupo LeYa, e foi uma das muitas editoras adquiridas em 2007 pelo empresário Miguel Paes do Amaral. A editora/chancela mantém-se em funções e é uma das mais importantes editoras portuguesas, tendo o grupo LeYa sido adquirido recentemente por um fundo holandês especializado no livro e no mercado escolar.

Até ao início do século, grande parte das editoras mais conhecidas no mercado eram empresas como a Porto Editora, a Publicações Europa-América, a Relógio d’Água, a Presença, só para mencionar algumas das maiores ou mais conhecidas. Os livros tinham tempo para singrar num mercado composto na maioria por tiragens pequenas (a tiragem média de um livro destinado a distribuição nacional em Portugal é de 1500 a 2000 exemplares). Paradoxalmente, num país de dimensão pequena e com baixos níveis de literacia, uma das estratégias mais engenhosas (em especial na década de 1990) para conquistar o público leitor passou por criar a ideia do livro como um objeto apelativo, num formato 16x23cm e capas com acabamentos caros (verniz e/ou relevo). 

Ao contrário de outros mercados europeus em que formatos mais caros coexistem com formatos mais económicos, assistimos em Portugal à produção quase exclusiva de livros com tiragens pequenas e impressão cara, vendidos inevitavelmente a preços elevados. Essa é uma realidade que pouco mudou nas últimas três décadas.

O que distinguia o mundo editorial nos anos anteriores às concentrações era a natureza da atividade do editor que caminhava numa delicada corda bamba entre o lado intelectual e cultural e o lado mais comercial e contabilístico. O livro não era visto apenas como um produto, mas um objeto aprimorado, que tinha passado por uma seleção cuidadosa e com conteúdo de qualidade. O editor da velha guarda via-se no papel de agente cultural respeitado e prestigiado entre os seus pares, sendo a maioria homens. Estavam todos cientes de que o negócio implicava alguma perda de dinheiro, equilibrada com o investimento em outro tipo de livros mais comerciais.

A concentração das editoras, transformadas em chancelas no âmbito dos grupos editoriais, alterou o papel do livro: passou a ser visto como veículo de entretenimento ou livro de atualidade (livros de não-ficção de cariz político, gastronómico, social ou psicológico) ou simplesmente como um best-seller, independentemente do seu género. E desde então cada livro tem de alcançar um determinado objetivo de vendas estipulado em folhas de cálculo. Se a obra fracassasse e não gerasse lucro, esse mau histórico pesaria na avaliação do próximo projeto de publicação do autor.

Portanto, em 2008, concretiza-se a fundação do Grupo LeYa, com uma concentração que incluiu inicialmente oito editoras (seis portuguesas, uma moçambicana e uma angolana). Viria a adquirir também o Grupo Oficina do Livro (e as suas sete marcas/chancelas). A LeYa publica os seus livros através das marcas ASA, BIS, Caminho, Casa das Letras, Dom Quixote, Gailivro, LeYa, Lua de Papel, Oficina do Livro, Quinta Essência, Sebenta, Teorema e Texto. Seria o primeiro de vários abalos que transformariam o modo como se publicam livros em Portugal.

Isto não significa que deixaram de existir editoras a publicar de forma tradicional, mas viram-se inevitavelmente pressionadas a se adaptarem aos novos tempos. Tornou-se uma guerra por visibilidade. Com a LeYa foram introduzidas novas práticas de marketing e novas formas criativas de vender livros que atraíram imensa atenção nas livrarias e na Internet. Ou corriam todos atrás ou observavam o mercado ser engolido por um grupo gigante.

A indústria tornou-se refém de políticas de massificação em que o público impõe aquilo que deseja. O editor deixou de ter a última palavra sobre o que é publicado e a sua função é assegurar lucros imediatos.

Não passaram muito anos até que acontecesse a segunda grande concentração editorial e que causou ondas de choque no mundo editorial português. O Grupo Porto Editora (até então limitado à atividade do manual escolar) anunciou a aquisição do Grupo Bertrand e de todas as suas empresas e marcas. Passou a ser o maior grupo editorial português, constituído por várias empresas que foram sendo compradas ao longo do tempo como a Areal Editores, Bertrand Editora, Círculo de Leitores, Raiz Editora, Distribuidora de Livros Bertrand, Livrarias Bertrand, Plural Editores Angola, Plural Editores Moçambique, Plural Editores Timor-Leste e a unidade de produção Bloco Gráfico. Aquelas editoras integram um portfólio de chancelas que inclui Albatroz, ArtePlural, Assírio & Alvim, Contraponto, GestãoPlus, Ideias de Ler, Livros do Brasil, Pergaminho, Quetzal Editores, Sextante Editora, Temas e Debates e 11x17.

Estes negócios permitiram à Porto Editora não só adquirir editoras, mas uma das maiores distribuidoras de livros do país, uma rede nacional de livrarias e entrar em força no mundo da ficção e não-ficção. Olhando hoje para o processo contra a Penguin Random House movido pela justiça norte-americana, uma pessoa não se pode deixar de questionar sobre o papel desempenhado até agora pela Autoridade para a Concorrência portuguesa e até que ponto essa Autoridade estava realmente ciente de como uma concentração deste tipo alteraria as regras do jogo, consolidando a forma como é realizado o negócio do livro em Portugal.

Mais recentemente, deu-se a aquisição do grupo 20/20 pela filial portuguesa da Penguin Random House, dando origem à Penguin Random House Grupo Editorial Portugal. Tem um catálogo de cerca de quatro mil títulos e é constituída pelas chancelas distintas Alfaguara, Alfaguara Infantil e Juvenil, Arena, Booksmile, Cavalo de Ferro, Companhia das Letras, Elsinore, Fábula, Fábula Educação, Farol, Influência, Joybooks, Lilliput, Nascente, Nuvem de Letras, Nuvem de Tinta, Objectiva, Penguin Clássicos, Suma de Letras, Topseller e Vogais.

Se há algo que todas as concentrações têm em comum é o facto de as respetivas administrações ressalvarem, no momento da aquisição, a autonomia e integridade das chancelas adquiridas, bem como a manutenção dos profissionais de edição envolvidos. O tempo encarregou-se de provar que nem sempre foi assim e os casos nos EUA e no Reino Unido são indesmentíveis. Se houve muitos profissionais históricos a sair de cena ou a mudar de casa editorial ou a fundar novas editoras independentes, uma nova geração entrou, a maioria relegada para os lugares de assistentes ou editores-sombra, com salários pouco mais elevados que o salário mínimo nacional (que vão aumentando com o tempo se o editor for persistente). 

Regra geral, os diretores de marketing ou de comunicação têm salários mais elevados do que as equipas editoriais, num dos muitos sinais de como esta indústria se tornou refém de políticas de massificação em que o público impõe aquilo que deseja, sendo a função do editor assegurar que os livros cumpram as expectativas desse público mais amplo, assegurando assim lucros imediatos. O que é pior, o editor deixou de ter a última palavra sobre o que é ou não publicado. André Schiffrin descreve esse processo melhor do que ninguém na obra referida acima:

"Todo esse processo tem vindo a ser deturpado pela transferência dos poderes de decisão sobre o que é ou não publicado das mãos dos editores para as dos chamados conselhos editoriais, nos quais os gestores e os responsáveis pelo marketing desempenham um papel fulcral. Se um livro não dá ares de poder vender mais do que um dado número [...] então o conselho editorial toma a decisão de não levar avante a sua publicação."

Schiffrin recorre à expressão “censura do mercado” para descrever este processo que domina atualmente a publicação nos grandes grupos editoriais. E como ficam as pequenas e médias editoras neste mercado? São certamente prejudicadas pelo facto de não disporem de orçamentos de marketing e publicidade, equipas de venda e distribuição à escala nacional, nem redes de contactos privilegiados com a imprensa que permitam que os livros recebam atenção. Por não conseguirem competir com as grandes editoras, torna-se inevitavelmente mais difícil arranjarem espaço nas livrarias ou espaço entre a crítica literária.

Além disso, um negócio desta dimensão tem o efeito de multiplicar livros cada vez mais semelhantes entre si, moldados para um determinado gosto e adaptados às modas do momento. Globalmente, a homogeneidade das escolhas tem vindo a ser criticada por um público cada vez mais exigente, forçando a necessidade de diversidade entre os autores publicados. Registou-se alguma evolução positiva nesse sentido nos últimos anos, ainda assim, aquém do desejado.

O ciclo de publicação: do manuscrito às livrarias

Como funciona o processo de publicação? De uma forma muito resumida, começa pela negociação de direitos de autor junto de agentes literários, no caso de livros estrangeiros. Em Portugal nunca vingou realmente a figura do agente literário, sendo este um mercado de dimensão reduzida e sempre foi considerada difícil a internacionalização dos autores portugueses. 

Essa situação melhorou na última década com a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) e outras instituições a garantirem presença mediática regular nas principais feiras de livro do mundo inteiro, levando consigo os autores mais badalados. Muitas dessas feiras internacionais não funcionam na mesma lógica que a Feira do Livro de Lisboa, mas são centros internacionais de negociação entre profissionais de edição, onde decorre a compra e venda de direitos de livros, muitas vezes com leilões de livros estrangeiros, não poucas vezes com um elevado volume de especulação.

Após a aquisição de direitos, os coordenadores e assistentes editoriais estão encarregues de assegurar a tradução, revisão e impressão na gráfica, enquanto em paralelo começa a desenvolver-se uma estratégia comercial (ditado pelo departamento editorial em conjunto com o de marketing e comunicação) que permita que o livro seja distribuído e colocado no mercado de forma bem-sucedida. 

No caso de autores portugueses que conseguem chamar a atenção dos editores (e raramente o conseguem por submissão espontânea de manuscritos por e-mail), os contratos de edição normalmente asseguram royalties de 8 a 10% aos autores sobre o PVP. Infelizmente, ninguém espera conseguir viver exclusivamente da atividade de escritor, embora tenha havido vários casos de autores portugueses best-seller que conseguiram dedicar-se à escrita, complementando com muitas outras atividades nesse âmbito.

A distribuição é um dos calcanhares de Aquiles do meio editorial português, construída de forma a favorecer livros de grandes tiragens e já com histórico comercial de sucesso.

O sucesso ou não de um livro depende em parte da distribuidora. Em Portugal a distribuição está limitada a empresas de grande dimensão como a Bertrand (pertencente ao grupo da Porto Editora mas que também distribui algumas editoras independentes) e a VASP. Várias outras editoras montaram o seu próprio sistema de distribuição. A distribuição em Portugal é um dos calcanhares de Aquiles do meio editorial, construída de forma a favorecer livros de grandes tiragens e já com histórico comercial de sucesso, ou livros que satisfaçam tendências com crescente procura, condenando pequenas e médias editoras a uma colocação dos seus livros bem mais limitada no mercado nacional.

Graças aos exigentes calendários das grandes cadeias (FNAC, Bertrand, SONAE são considerados os melhores clientes), assim como a outros fatores, aquela que era uma atividade relativamente tranquila transformou-se num frenesim de publicação, numa corrida para assegurar metas de faturação anuais. Os livros chegam às livrarias como novidades consignadas, mas o seu tempo de vida é relativamente curto, sendo em poucos meses devolvidos à distribuidora. As livrarias estão cada vez mais atulhadas de novidades a tentarem ser best-sellers, sendo “o seu ciclo de exposição de um livro nas lojas como algo entre o leite e o iogurte” (citação retirada do livro de Schiffrin), levando a que os livros sejam devolvidos cada vez mais rapidamente. 

Também há a questão da concorrência desleal movida pelas grandes cadeias na prática de descontos dos livros, motivando muitas queixas por parte do setor independente. Daí ter surgido a Lei do Preço Fixo que garante que, durante 24 meses, um livro não pode ser vendido com descontos superiores a 10%. De ressalvar que tal não tem conseguido impedir que sejam praticadas várias estratégias pelas grandes cadeias que contornam abertamente esta lei. Consequentemente, são poucos os protagonistas do meio que acreditam que essa medida traz grandes benefícios num setor em permanente evolução. 

Uma nota para mencionar a existência de editoras que cobram aos autores para publicarem livros. Durante algum tempo, essas editoras aproveitavam-se da inocência e desconhecimento do público para darem a entender ser  uma prática corrente. Que fique claro que a prática corrente entre editoras tradicionais não é a de cobrar aos autores, mas isso não quer dizer que não sejam disponibilizados inúmeros serviços editoriais que permitam ao autor obter um livro, mediante um determinado custo, desde que tenha conhecimento de que não está em pé de igualdade com outros autores que beneficiam de um trabalho de distribuição e promoção mais extenso numa editora tradicional.

Trabalhar no mundo editorial

Para os que assistem do lado de fora, há uma certa romantização das funções do profissional de edição, imaginando-se que ainda cumpre o cliché do editor da velha guarda que passa o seu tempo a ler manuscritos e a descobrir o próximo José Saramago. Pode ser que alguns raros editores cumpram esse estereótipo, mas a grande maioria está sujeita a um nível elevado de pressão e inundados de tarefas de coordenação, gestão e de controlo de qualidade.

Na década em que trabalhei, foram vários os casos de colegas que se despediram ou meteram baixas prolongadas por burnout. A atividade consome demasiadas horas-extra, para lá do horário de expediente e, infelizmente, ler é a atividade que tem menos prioridade no meio das imensas solicitações e reuniões com autores, equipa comercial, assistentes, produção, comunicação, agentes, etc. A leitura tem de ser, muitas vezes, feita no tempo livre e perdemos a inocência e o prazer pela leitura nesse processo. Além disso, em grupos de grande dimensão, compostos por muitas chancelas, os assistentes editoriais estão confinados aos projetos de uma chancela apenas, causando alguma insatisfação nas equipas por não poderem trabalhar de uma forma mais diversificada.

O trabalho de lidar com gráficas e papeleiras é um dos departamentos vitais de qualquer editora. É atualmente um dos departamentos sob mais pressão devido à disrupção das cadeias de produção e distribuição e durante a pandemia o custo de matérias-primas encareceu brutalmente. Falamos não só do custo do papel, mas também dos custos associados às chapas usadas para impressão, às colas, às tintas ou aos vernizes. Se já era frequente termos crises de nervos em 2010, causadas pelas papeleiras e gráficas, só posso imaginar o quanto essa situação escalou com a pandemia.

Na década em que trabalhei, foram vários os casos de colegas que se despediram ou meteram baixas prolongadas por burnout.

Mas é no departamento editorial que todos querem ter a oportunidade de fazer o seu contributo e brilhar. No meu caso, tive felizmente a oportunidade de mostrar a paixão que tínhamos pelos livros. O meu tempo já não era o tempo da velha guarda (que, na verdade, nunca deixou de existir e sempre critiquei pelo conservadorismo, misoginia ou por se focarem demasiado num determinado perfil de autor ou escrita), e foi-me dada a possibilidade de dar a conhecer géneros marginalizados e menos conhecidos e, por vezes, com resultados surpreendentes. 

Os editores são a veia pulsante de qualquer editora e são eles que moldam a identidade do mundo dos livros. Infelizmente, por falta de disponibilidade, muitos não têm tido a capacidade de fazer um verdadeiro editing de obras de autores portugueses, ou seja, um trabalho de edição aprofundado que permitisse tornar uma obra imperfeita e com falhas numa obra mais consistente e eficaz. Para que isso fosse possível, era necessário libertar o editor de muitas outras funções de gestão que ocupam grande parte do seu tempo.

Para onde caminha o futuro do livro?

Até ao final do ano será conhecida a decisão da juíza no caso da fusão da Penguin Random House com a Simon & Schuster. Se o governo do presidente Joe Biden ganhar o processo, impedindo a aquisição, vai abrir um extraordinário precedente. Mas mesmo que perca, este processo judicial já serviu para expor um negócio muito mais feroz e predador do que se julga. 

Quer isto dizer que tudo o que resulta da atividade dos grandes grupos editoriais é mau? Certamente que não, mas levou a um maior foco na audiência de massas, a uma maior uniformização estética, a uma aposta maior na forma em detrimento do conteúdo.

Felizmente, ainda há aventureiros na edição que escolhem publicar apenas obras que considerem meritórias e nas quais investem um elevado cuidado de produção e edição. Muitas dessas editoras não publicarão mais do que dois a cinco livros por ano (em comparação com os 350 livros por ano do Grupo Penguin Portugal) e a sua venda está limitada às livrarias independentes nos grandes centros urbanos ou a vendas online.

É ainda de notar que têm surgido novos modelos interessantes de edição assentes em cooperativas. A título de exemplo, a editora de banda-desenhada A Seita escolheu o modelo cooperativo para realizar um trabalho persistente e regular de promoção de autores nacionais e estrangeiros, tanto nas bancas como em livrarias. Coincidentemente, a BD e manga (banda-desenhada de origem japonesa) são dos livros que mais têm registado crescimento de vendas em Portugal nos últimos anos.

E como tem sido feita a gestão da visibilidade e comunicação dos livros (para além das estratégias de marketing)? Durante muito tempo, quando um livro era notado pela crítica literária, isso garantia-lhe promoção. No entanto, com o declínio do suplemento cultural nos jornais dos últimos 15 anos, muitas vezes substituído por cadernos de lazer e lifestyle, o espaço para a crítica literária tornou-se incrivelmente reduzido. As referências aos livros na imprensa passaram a ser baseados nos press-releases enviados pelos departamentos de comunicação, replicados até à náusea por sites noticiosos. 

Por volta de 2008, o Facebook começou a alterar significativamente o panorama de divulgação, com um impacto considerável na venda dos livros, e agora é a nova geração de redes sociais como o TikTok e o Instagram (este em menor medida) que têm influenciado a popularidade dos livros, com influencers entre a Geração Z a promoverem os seus autores favoritos com assinalável sucesso. A indústria de livros está sempre atenta e vigilante a estrelas em ascensão, seja em que área for, e tem procurado cortejar as celebridades ou influencers com muitos seguidores, de modo a gerar fenómenos massivos de vendas. E é talvez pelo facto de muitas editoras estarem em sintonia com os novos tempos que a Feira do Livro de Lisboa se tornou um local de enchentes a bater recordes todos os anos.

A indústria de livros está sempre atenta a estrelas em ascensão e tem procurado cortejar as celebridades ou influencers com muitos seguidores, de modo a gerar fenómenos massivos de vendas.

Todos os dias surgem novas tendências e, aos poucos, começamos a ver a inteligência artificial a infiltrar-se no meio com novas técnicas e ferramentas (Dall-E ou Midjourney são as mais recentes) que poderão revolucionar a forma como se publica um livro, mas nada disso é necessariamente incompatível com o que já atualmente existe. A introdução de e-books no mercado não matou os livros em papel (por mais propaganda que tenham feito) e já existem outros formatos como os audiobooks. Curiosamente, em Portugal, os audiobooks são praticamente inexistentes e a venda de e-books ainda é bastante residual, representando cerca de 1% do mercado.

Existem receios de que uma nova recessão económica possa afunilar ainda mais as opções das editoras, dando prioridade a apostas mais seguras e arriscando cada vez menos em novas vozes, dando seguimento a uma crescente tendência de uniformização. Mas se há algo que a minha atividade enquanto editora me ensinou é que um verdadeiro fenómeno literário jamais pode ser deliberadamente fabricado. Foi sempre o passa-palavra entre leitores que permitiu a autores milionários como J. K. Rowling ou George R. R. Martin triunfarem inesperadamente no mainstream. Por mais que os grupos editoriais ou agentes literários especulem em torno de autores de romances de estreia, todos sabemos que o que irá determinar um sucesso a médio e longo prazo é a capacidade genuína de um autor alcançar o coração dos leitores.

Não sei se consegui responder às muitas perguntas que existem na cabeça de leitores sobre o mundo dos livros. Já não faço parte dos seus meandros, tomando a opção de sair por cansaço e porque já não me identificava com a forma atual de publicar livros. E, no entanto, poucas vezes fui feliz na minha vida como nos momentos em que conseguimos concretizar alguns dos nossos melhores projetos, muitos deles acolhidos pelo público com enorme recetividade. No meu caso, a paixão foi tão intensa que acabou por me consumir e esgotar por completo. Acabei por seguir em frente sem nostalgia ou arrependimento e encontrei outras formas de manter a minha ligação aos livros.

Em Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (obra cujos direitos adquiri para publicação em Portugal), os livros são ilegais e queimados por bombeiros num mundo distópico. Para preservá-los da destruição, os sobreviventes memorizam os livros, mantendo-os assim a salvo. Sempre gostei dessa ideia de que, mesmo no fim dos tempos, são os livros que nos salvam e nos fazem manter a esperança no futuro. Sempre houve livros de todas as cores, formatos e géneros para todos os gostos. 

Ainda assim, podemos dar o nosso contributo individual para que a indústria se mantenha diversa, não se limitando a uma audiência de massas, e com espaço para lançar vozes e ideias alternativas. A profunda transformação no setor editorial não pode ser pretexto para que deixe de existir um debate alargado democrático proporcionado pela cultura dos livros.