Gente com cócegas

Mostrar a dor crua e brutal, sem cair em sensacionalismos, não é tarefa fácil. Além de sensibilidade e bom senso, exige entrega, recato, intuição, ponderação, tempo – muito tempo. São valores preciosos e cada vez mais escassos nas redações onde hoje, tudo é urgente na corrida pelo click e pelo soundbite.

Ensaio
28 Janeiro 2022

O e-mail chegou alguns dias depois da emissão da reportagem O Resto das Nossas Vidas, em 2013. Enviado por um empresário, confessava que era a primeira vez que conseguia falar no suicídio do filho. Sentira necessidade de o fazer, após escutar a reportagem sobre a morte e o luto emitida na TSF, um dos meus trabalhos mais difíceis e que reforçou a ideia, entre alguns editores, de que “só fazes reportagens duras e tristes”. Antes d’ O Resto das Nossas Vidas, já tratara o tema dos cuidados paliativos, em “Esperança de Vida”, e a realização dos sonhos de crianças com doenças graves em A poção mágica.

Um dos meus maiores dilemas colocou-se logo na primeira grande reportagem, quando um dos doentes terminais faleceu já com o trabalho editado. Além do lado emocional, levantam-se questões éticas complexas: devemos manter o depoimento dos familiares? Se sim, de que forma? Como proteger a dor de quem estará a sepultar a mãe quando a reportagem for para o ar? Se não mantivermos o testemunho, como reformulamos toda a estrutura da reportagem – e em poucas horas?

Quando antes tinha duas semanas e meia para trabalhar numa grande reportagem, nos anos mais recentes, o trabalho deve ser despachado o mais depressa possível e apenas nos dias em que não houver ninguém fora da equipa.

Em todas estas reportagens, como mais tarde em Renascidos do Cancro, Cabeças na Lua e O Telhadinho (sobre deficientes mentais adultos), Lembra-te de mim (doentes de Alzheimer) ou Lições de Coragem (vítimas de violência doméstica), tocava nas emoções mais íntimas e dolorosas: desde a perda ao medo, a solidão, a agonia, a violência, a angústia ou a saudade. Em muitas, confesso, estremeci por dentro.

Nalgumas, fiquei por momentos, sem palavras ou com um nó que me roubava o fôlego; noutras, não consegui conter as lágrimas. Mas também partilhei muitos sorrisos, olhares e silêncios. Talvez por isso, os protagonistas das minhas reportagens não tinham receio ou constrangimento em mostrarem-se frágeis e reviverem o que mais os fizera sofrer. Perante o pudor e respeito de quem pergunta, sentiam que podiam confiar numa repórter que estava ali, realmente a ouvi-los.

A confiança levou a que no meu primeiro grande dilema, a entrevistada, que acabara de perder a mãe, autorizasse a divulgação do testemunho sobre as fases da doença e de como a mãe conseguira passar “mais um Natal, mais um aniversário”, antes de morrer de cancro. N’ O Resto das Nossas Vidas, nunca esquecerei como uma jovem mãe relatou o momento em que ela e o marido olharam um para o outro, antes de dizerem à médica que não valia a pena tentar reanimar, mais uma vez, o filho já bastante debilitado. Lutavam há cerca de um ano contra a doença rara do bebé e nesse dia, “o S. partiu”.

Mostrar a dor crua e brutal, sem cair em sensacionalismos, não é tarefa fácil. Além de sensibilidade e bom senso, exige entrega, recato, intuição, ponderação, tempo – muito tempo. São valores preciosos e cada vez mais escassos nas redações onde hoje, tudo é urgente na corrida pelo click e pelo soundbite. Quando antes tinha duas semanas e meia para trabalhar numa grande reportagem, nos anos mais recentes, o trabalho deve ser despachado o mais depressa possível e apenas nos dias em que não houver ninguém fora da equipa.

Nas grandes reportagens, uma das etapas mais críticas sempre foi o que chamo de “montar o puzzle”. Talvez por defeito pessoal ou profissional, acabava por conhecer todos os sons, todas as palavras, pausas, respirações e inflexões na voz. Adormecia e acordava a pensar na forma de encaixar as peças, ou em peças que faltavam, por vezes tão singelas como o ranger da porta que se abre, o vento nas árvores, ou os passos nas escadas. Sempre gostei de puzzles, mas estes eram de tal forma exigentes, que precisava de tempo, antes de voltar a embrenhar-me num novo desafio. Hoje, com a corrida contra o tempo e a falta de pessoal, não há puzzle que resista. Com a manta curta, é sempre a reportagem que fica com os pés de fora.

Nos últimos anos, tive o privilégio de acompanhar as eleições que, nos EUA, deram a vitória a Donald Trump, e no Reino Unido a vitória do Brexit e, mais recentemente, a Boris Johnson. Estive com os refugiados sírios na fronteira com a Turquia; em Angola, nas eleições que ficarão na história por marcarem o fim da era de José Eduardo dos Santos e já este ano, em Moçambique, no primeiro ano sobre a passagem do ciclone Idai. Por questões de segurança, não pude circular livremente em Luanda, na Beira ou em Sanliurfa (Turquia), mas não faltaram histórias dos musseques, aulas debaixo da árvore (à falta da escola destruída pelo Idai), a maternidade onde os partos se faziam à luz da lanterna, ou a menina de Aleppo que, grata por voltar à escola, se abraçou à carteira, no primeiro dia de aulas.

Nunca como agora foi tão difícil ir ao fim da rua, quanto mais ao fim do mundo. Contam-se tostões, cada vez mais confinados ao jornalismo de secretária e dos ecrãs.

No bairro de Queens, uma visita exclusiva à casa de infância de Donald Trump compensou o facto de ter sido barrada, semanas antes, num comício do Presidente que acabara de ser eleito. Em Londres ou Nova Iorque, bastava sair à rua, para encontrar protestos furiosos, até com um cowboy em trajes menores. São histórias com “gente dentro” que só conseguimos contar estando no terreno – em reportagem. Mas o que a maioria dos ouvintes não saberá é que estas reportagens só foram possíveis, porque os custos eram partilhados ou inteiramente suportados por outras organizações.

Escrevo à beira de cumprir o terceiro mês de lay-off na TSF, o primeiro nos 25 anos que levo ao serviço da rádio que se orgulha de ir “ao fim do mundo e ao fim da rua”. Em tempos históricos, com um vírus à solta, nunca como agora foi tão urgente a minha vontade de fazer reportagem. E nunca como agora foi tão difícil ir ao fim da rua, quanto mais ao fim do mundo. Contam-se tostões, cada vez mais confinados ao jornalismo de secretária e dos ecrãs.

No fim da rua, encontrei, há anos, um casal entusiasmado com um novo centro em Almada, inovador no tratamento do autismo. Os dois sorriam ao descrever os progressos do filho com síndrome de Down. Só no final, depois de desligado o gravador, revelaram o que ainda hoje me comove. Eram médicos em Coimbra, quando me tinham ouvido noticiar o método ABA, na altura inédito em Portugal. Depois de pesquisas exaustivas, abdicaram dos seus postos de trabalho. Ele pediu transferência, ela deixou de exercer, mudaram-se para a zona da grande Lisboa, para inscreverem o filho no centro em Almada. Uma simples reportagem mudou-lhes a vida.

As reportagens podem parecer banais ou “duras e tristes”, mas é precisamente por isso que devem ser feitas. Porque não deve haver temas tabus e porque dão voz a pessoas que de outra forma nunca seriam ouvidas. Como a senhora Arlinda, a viver há mais de 30 anos sem luz num monte em Pulo do Lobo: “quando o Sol nasce, há de ser para todos. Mas não é.” Ou como o Tó, com 49 anos e trissomia 21, explicando o riso sem motivo aparente: “tenho cócegas no coração”.

É isso que fazem as reportagens com pessoas reais e extraordinárias: sacodem, alertam, fazem-nos cócegas. Por vezes, basta ouvi-las para inspirar quem esteja na mesma situação. Para que ninguém se sinta sozinho, ou tão só para que um pai possa libertar a dor mais funda ao mencionar, finalmente, o suicídio do filho.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.