Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa. É escritor e trabalha na área da comunicação desportiva. Publica regularmente no Twitter e no blogue Modo:mudança

Futebol e Capitalismo: história de uma tensão

A diversidade de opções para acompanhar o jogo aumenta, enquanto se reduzem os espaços onde se pode vivê-lo. As grandes audiências concentram-se nos jogos de um pequeno punhado de equipas e nos feitos das estrelas, sendo o adversário um mero figurante. O que se transforma no capitalismo é a maneira como o futebol se materializa enquanto território de criação de identidade.

Ensaio
26 Maio 2022

O futebol é um território nascido de dentro do capitalismo. Gera um conjunto de tensões que se prolongam no tempo, num combate que não parece encontrar forma de se resolver. Se a origem do jogo surge no campo dos privilegiados, o futebol foi aberto às classes mais baixas na busca de talento e capacidade competitiva. Desfeito o que era privilégio em constante luta pela liberdade nos seus muitos usos e evoluções, o século XXI veio, de alguma forma, dinamitar os espaços onde estas tensões se desenvolvem. 

Já não é nos campos das grandes provas profissionais que o futebol capitalista é posto em causa, mas na maneira como podem entreabrir-se outras formas de viver o fenómeno futebolístico fora dessa elite.Mesmo que se pressintam um elevado número de desigualdades entre equipas de ligas diferentes e mesmo entre equipas que disputam os mesmos campeonatos ou entre as pessoas que se sentam em diferentes pontos das bancadas e nas dificuldades de acesso às mesmas. 

Ao mesmo tempo, isso levantar-nos-á questões sobre se não será um privilégio a vivência do futebol como algo recreativo, coisa que, de facto, ao longo da história, o jogo sempre teve muita dificuldade em ser. Compreendamos o espaço que hoje sobra para perceber as tensões capitalistas no seio do futebol. 

A transformação do jogo de um espetáculo ao vivo, na sua essência, para um espetáculo mediático - sobretudo televisivo, mas em profunda migração para o espaço digital -, torna a sua vivência dotada de muitas opções. Não por acaso, a Liga Espanhola ensaiou, durante os tempos da pandemia de covid-19, quando não era permitido público no estádio, o uso de imagens e sons que simulavam bancadas cheias, mesmo com capacidade de reagir aos acontecimentos do jogo. Para o observador menos atento, esse efeito bastava para tornar o espetáculo semelhante ao vivido nos tempos normais. 

Normal, nos dias de hoje, é o entendimento do futebol apenas por aquilo que acontece na elite da elite. As grandes audiências concentram-se nos jogos de um pequeno punhado de equipas, centradas em duas a três provas, focando-se, para mais, nos feitos das equipas-estrela, reduzindo muitas vezes o adversário a um mero figurante. 

Ou seja, ao mesmo tempo que a diversidade de opções para acompanhar o jogo cresce, parecem reduzir-se os espaços onde se pode vivê-lo conforme as suas origens, em contacto com as tensões sociais, culturais e pessoais que sempre alimentou. O que se transforma no seio do capitalismo é a própria maneira como o futebol se materializa enquanto território de criação de identidade.

A reivindicação do capital num panorama de cultura

A proposta de uma Superliga, competição fechada onde os vinte mais poderosos clubes da Europa poderiam garantir a sua participação constante, sem o risco de descida de divisão ou de crise desportiva que levasse ao seu não-apuramento para a prova, é uma proposta natural. Faz parte de uma  fase adiantada de um capitalismo que dificilmente encontraria uma voz que fosse capaz de o contrariar. 

No entanto, a ideia não avançou no formato proposto. Esse facto estará mais ligado à luta pelo poder na dita competição (quem organiza e quem lucra com a organização) do que propriamente à defesa de diferentes visões para o futebol. O novo formato anunciado para a Liga dos Campeões, prova-mor da UEFA, terá praticamente todos os condimentos que tornava a Superliga atraente para os principais clubes do mundo. A criação de opções que garantem a entrada dos clubes com mais história, independentemente da sua prestação nas provas nacionais, é uma espécie de substituto natural da presença garantida.

Não foi por acaso, no entanto, que o movimento de rejeição da Superliga teve uma maior expressão entre os adeptos dos clubes ingleses. Foram os primeiros a saltar fora do grupo que propunha um formato diferente de competição. A Inglaterra tem estado sempre à frente no que toca ao entendimento desta tensão que o futebol provoca no seio do capitalismo. Foi aqui que o futebol nasceu, que o profissionalismo se desenvolveu, permitindo acomodar o crescimento da modalidade por classes sociais mais baixas. Enquanto viam os seus melhores talentos ganharem espaço dentro do campo, também se transformaram em consumidores para os primeiros passos de um futebol-indústria que, na Inglaterra e na Escócia, primeiro se viu como um espaço onde os clubes tinham donos e os adeptos se transformavam em clientes. 

A luta anticapitalista, no futebol, precisa de jogadores que compreendam e cultivem uma posição que lhes permita retirar ganhos coletivos para a vida de todos os futebolistas.

Ou seja, lidando com este contexto, a forma de exigência dos adeptos (não sócios) permitiu também um mais apurado sentido crítico em relação às decisões de quem manda, o que geraria interessantes discussões sobre a melhor forma de participação dos adeptos na gestão dos clubes. Finalmente, foi em Inglaterra que se criou uma Premier League a liderar um novo enquadramento das provas nacionais, dotando essas provas de um quadro comercial nunca antes visto em nenhum outro território.

Toda esta evolução no seio do capitalismo e do comercialismo do jogo fez-se sempre com um largo entendimento, por parte dos adeptos, da forma como estas decisões impactam a vivência do jogo. Trata-se de um público educado para o jogo, para uma vivência da relação com os adversários que sempre foi de valorização, mesmo apesar dos anos negros do hooliganismo. 

Por outro lado manteve-se um enorme foco, mesmo com espaços mediáticos, para o futebol fora das principais divisões principais. Continuaram a existir espaços de refúgio para muitos daqueles que, com o incremento da Premier League, com regras mais apertadas nas bancadas e preços galopantes, tiveram que encontrar outras formas de desenvolver a sua relação com o jogo. 

Foi também nesses espaços que se criaram projetos que responderam, de forma cooperativa, a decisões de donos de clubes que desrespeitaram a vontade dos adeptos. Exemplo disso foram a mudança do Wimbledon para Milton Keynes,  que levou à criação de um novo clube em Wimbledon que também já atingiu os escalões profissionais, ou a venda do Manchester United a um dono estrangeiro, levando à criação do United of Manchester.

A luta do capitalismo e do anticapitalismo no território do futebol precisa, assim, de adeptos que tenham uma noção clara e desenvolvida da cultura associada ao jogo e aos seus clubes, da mesma forma que precisa de jogadores que compreendam a sua posição e cultivem um posicionamento que lhes permita retirar ganhos coletivos para a vida dos futebolistas. Isto porque os números gordos e milionários são um fruto ao alcance de muito poucos e um sonho quase impossível de alcançar para uma enorme maioria. 

Só uma pequena percentagem de praticantes federados atingem, um dia, o profissionalismo, e só uma ínfima percentagem desses consegue atuar numa das cinco maiores ligas do mundo (todas concentradas na Europa) ou na Liga dos Campeões europeus. Daqueles que atingem esse patamar, muito poucos conseguem ter uma carreira onde durante mais de dez anos têm contratos milionários e prémios chorudos. O futebol é fruto do capitalismo mas é uma experiência de precariedade, muito para lá do amor que lhe dedicam os que nem na equipa da escola conseguiram ser titulares.

As imensas sombras da luta de classes

O futebol foi criado como um símbolo de privilégio dos jovens rapazes das classes mais altas da sociedade britânica. A sua organização num conjunto de regras que permitia a competição emergiu de um grupo de homens com educação e demonstra-se, durante os primeiros anos, como imensamente resistente à participação de outras classes sociais. 

No entanto, a transformação do jogo numa competição trazia  desde logo uma primeira tensão para quem pretendia delimitar o direito à participação. Era inegável que das classes trabalhadoras emergia um talento para o desporto e uma capacidade competitiva que punha em causa os privilégios das classes mais altas. Foi a vontade de vencer que forçou as portas das equipas a homens de classes baixas.

A segunda barreira a esta contaminação estava no profissionalismo. Enquanto os elementos das classes altas beneficiavam de tempo e recursos para treinar e viajar para os jogos, isso não se aplicava da mesma forma a quem dependia do trabalho para assegurar a sua subsistência.

O enquadramento dos melhores talentos, como trabalhadores de fábricas, que iam conquistando tempo de trabalho para dedicar ao treino, funcionou como recurso que foi perdendo viabilidade quando, além da descoberta de talento a nível local, os clubes entenderam procurar na transferência de jogadores uma arma para potenciar, ainda mais, a sua capacidade competitiva.

Este facto denuncia que, mesmo em momentos iniciais do jogo organizado, o capital tinha um peso concreto na forma como as equipas se organizavam. Rapidamente se passou da criação de clubes por conjuntos de praticantes com afinidade de localização (o clube do bairro, o clube da terra) para a sua transformação em grémios de burguesia que usavam os seus recursos para contratar os melhores jogadores. Foi a grande alteração na face da modalidade e a sua porta de entrada para a realidade que vivemos hoje. 

O futebol é fruto do capitalismo mas é uma experiência de precariedade, muito para lá do amor que lhe dedicam os que nem na equipa da escola conseguiram ser titulares.

As classes privilegiadas migraram do terreno de jogo para as direções dos clubes, dando espaço aos praticantes das classes mais baixas, que aí expressavam o seu talento, transformando-os por sua vez em mercadoria. O investimento feito na profissionalização era pago pela comercialização do espetáculo, onde todos os que queriam fazer parte do clube passaram a ser vistos como clientes e consumidores.

A ideia de espetáculo, mercadoria e comercialismo foi sendo desenvolvida ao longo das décadas. Ao mesmo tempo, o futebol mantém-se  como uma atividade eurocentrada, sendo aqui que se conjugam as equipas mais poderosas e os melhores jogadores. Ao ponto de, apesar de tentativas de deslocamento de jogadores pagos a peso de ouro para outros continentes (em diferentes momentos da história do futebol para os Estados Unidos, o Médio Oriente ou a Ásia), o falhanço desses projetos transformou-se no encaminhamento do dinheiro de outros continentes para os clubes europeus. 

Na Premier League inglesa, na Série A italiana ou na Ligue 1 francesa, a presença de donos de clubes oriundos de outros continentes reforçou o eurocentrismo, há muito sentido na forma como jogadores, cada vez mais jovens, procuram a Europa para desenvolver a sua carreira. Estes movimentos não são feitos, totalmente, de histórias de sucesso. A grande maioria dos jovens sul-americanos ou africanos que procuram a Europa para concretizar o sonho europeu acabam em situação precária. Muitos dos investidores que o fazem fora das grandes ligas também têm acabado em situações de insucesso e ruína.

São por isso sombrias as consequências desta luta de classes no seio do futebol. Mesmo numa fase histórica onde o poder se tem transferido, paulatinamente, para um punhado de jogadores que se transformaram em estrelas mundiais mais poderosas do que clubes, essa passagem de testemunho não se verifica em grandes ganhos no que toca aos direitos dos jogadores e na assistência que estes podem beneficiar para lá dos contratos assinados. Continuam a ser regulares casos de jogadores que passam de uma situação de riqueza, enquanto praticantes, para situações de enorme precariedade, Também se continua a encontrar vários casos de enormes atentados aos direitos e às esperanças de muitos jovens futebolistas. 

Enquanto isso, no palco principal deste enorme festival, a festa segue como se nada fosse. Cada vez mais espetacular para quem a vê de fora.

A distorção do etéreo

A interação do futebol com noções como a arte ou a religião são recorrentes e lançam-se também na tensão verificada dentro do próprio capitalismo. A ideia de um futebol-arte sempre convocou uma certa ideia de privilégio, ora associada ao talento dos seus praticantes, ora associada à capacidade de organização de determinadas equipas. A questão artística confunde-se, muitas vezes, com questões de liberdade. 

Na forma como exacerba o talento individual, a arte no futebol tendeu para algumas expressões libertárias que, no fundo, ignoram as discussões sobre o que é a arte. Assume-se que uma certa libertinagem no jogo é uma expressão artística, um conceito romantizado. Mas o seu desvio foi também muitas vezes apropriado para redefinir a possibilidade de espetáculo. Assim, do futebol-arte evoluiu-se para um futebol-espetáculo onde os aspetos comerciais são redefinidos dentro de balizas propagandísticas, partindo daí para a execução de planos que transformam o espetáculo, massificando-o.

A ideia de uma religião do futebol também está associada a este tipo de tensões. Religioso é o comportamento do adepto que se entrega à glorificação do seu clube, acompanhando-o em todas as partidas, reforçando as suas opções e sublinhando a sua importância acima de qualquer rival. Este sentimento de identificação, na sua origem, muito puro na forma como as pessoas aderem ao clube que as representa, ao nível do bairro, da vila ou cidade, do país ou, noutros casos, com as origens do clube a representar mesmo opções religiosas ou ideológicas, foi-se também transformando para que possa ser monetizado pelas estruturas capitalistas.

A grande maioria dos jovens sul-americanos ou africanos que procuram a Europa para concretizar o sonho europeu acabam em situação precária. São sombrias as consequências da luta de classes no futebol.

Os sentimentos de pertença foram sendo transformados em situações de dependência, na necessidade de utilização de símbolos constantemente renovados (as camisolas que todos os anos mudam, as inúmeras alternativas que assumem até outras cores), na compra de bilhetes e de outros períodos que possam comprovar essa pertença.

Ambas as noções foram sendo distorcidas com a passagem do futebol desde, essencialmente, uma atividade acompanhada no local, ao ar livre, para se transformar numa atividade televisiva e, nos nossos dias, cada vez mais digital. Essa transformação dotou os clubes de elevados ganhos financeiros, com a venda dos direitos de transmissão a mudar o panorama do futebol. 

Ao mesmo tempo, tornou em fenómenos globais e diários os principais jogadores e os principais clubes do mundo, ocupando o espaço e a identificação com os clubes de proximidade. Por via da televisão ou do telemóvel, é-nos hoje mais fácil acompanhar todos os acontecimentos relativos a um jogador, onde quer que ele esteja, sendo que podemos também ver todos os jogos da equipa que bem entendermos. 

Foi um fenómeno que conduziu a uma concentração de valor no topo da elite e que dificilmente poderá trazer benefícios para a grande maioria dos clubes e dos praticantes, mesmo aplicando vários mecanismos de solidariedade que foram sendo estruturados ao longo dos tempos.

O adepto vê-se também frontalmente dividido nas diversas exigências que lhe são feitas. Por um lado, a higienização dos espaços onde se realiza o espetáculo, com o aumento dos preços e das regras, transforma uma ida ao estádio muito semelhante a uma visita a um centro de exibições, onde o cliente, na compra do bilhete, assume a sua conformidade com todas as indicações dadas pela organização. Ao mesmo tempo, esse mesmo adepto é confrontado com um ambiente de violência manipulado pela plastificação das exibições de pertença ao clube que preferem. 

A glorificação de um adepto, mais do que dedicado, fanático pela sua equipa que não questiona nada daquilo que é decidido pela administração, mas que coloca em causa todo e qualquer acontecimento que contrarie a sua possibilidade de vitória, cria verdadeiras tensões entre adeptos, com visíveis conflitos nas bancadas pelo domínio do ambiente nos jogos em casa. 

A distorção que é feita do que era etéreo em redor do jogo transporta-nos para situações cada vez mais imprevisíveis na forma como as massas reagem às regras que lhes enquadram as reações.

A tensão do eterno retorno

O efeito final desta carga capitalista impregnada no futebol tem que ver com o efeito de repetição que é alimentado nas televisões e nas redes digitais, transformando também as estruturas e existências físicas ligadas ao jogo. A manipulação das massas transforma-se para enquadrar cada ação do jogo numa discussão repetida sobre o acerto e o falhanço, a capacidade de a realidade existir é colocada em causa, as atenções desviam-se do jogo e transferem-se para elementos que lhe são acessórios. 

Repete-se, também, até à fadiga, a entrega de prémios e reconhecimentos, a transformação de feitos em elementos únicos, tornando-se esse efeito de repetição uma autêntica necessidade para garantir a existência de muitos clubes que, à sua dimensão, abandonam o sublinhar da sua identidade para copiar a forma como os maiores clubes do mundo se comportam - nos jogos, nas relações com sócios e adeptos, na forma como lidam com a comunicação, num processo dificilmente contrariável.

A carga de repetição causa, em algumas bolhas, uma ideia de cansaço e enfastiamento em relação ao fenómeno futebolístico, distribuindo culpas ao futebol de situações que sobrevivem na própria sociedade. É nesse espaço de tensão do futebol no capitalismo que importa intervir, porque é aí que há espaço para que a tensão crie situações de valorização social e cultural fundamentais para o progresso.

O futebol continua a transmitir uma lição fundamental para a nossa vida em sociedade. A da utilização do talento individual para o bem comum.

Em primeiro lugar, no âmbito das liberdades. Apesar dos pesos atribuídos à abertura do jogo às classes baixas, esse movimento tem sido essencial para permitir a transformação do futebol num ascensor social, com diferentes tomadas de posição que valorizam, também, o meio de onde os futebolistas saem.

Por outro lado, a natureza do jogo, fundamentalmente coletivo, tem alimentado ao longo das décadas uma compreensão da importância do cooperativismo no alcance de objetivos. O futebol continua a transmitir uma lição fundamental para a nossa vida em sociedade. A da utilização do talento individual para o bem comum.

Outras lutas têm campo no futebol. A luta social e cultural do jogo, a capacidade de transformação da identidade em reconhecimento comunitário e o esforço que se mantém necessário de atribuir voz e igualdade na busca de sucesso competitivo.

Nos nossos dias, exprime-se ainda a importância do futebol nas questões da identidade sexual e do feminismo. Há um crescente número de praticantes femininas que tem levado a uma maior importância e mediatismo do futebol feminino (com as suas vantagens, mas também correndo iguais perigos desigualitários a que assistimos na vertente masculina). E, além disso, começa-se a aceitar os valores de identidade de género através de várias campanhas que utilizam o futebol como veículo. Ainda assim, na vertente masculina, a dificuldade para o assumir da homossexualidade dos praticantes é um problema a rever.

Viver o futebol

Não resta a mínima dúvida que, tendo nascido no seio do capitalismo, o futebol sente um cada vez maior peso do capital no seu desenvolvimento. Ao normatizar a manifestação popular, tende-se a perder a capacidade de ligação a esta, pelo que se abriu espaço para a existência de diferentes territórios do futebol, o que em última análise poderá levar à existência de diferentes futebóis. Um que tende a continuar o seu desenvolvimento no seio de um mundo brutalmente financeiro, outro que procura recusar com todas as forças essa transposição, e uma enorme massa que, no meio, se sente dividida pela capacidade de atração de uma e outra possibilidade. 

São vários planos que o jogo nos propõe, sendo que ambos têm as mesmas fortes ligações à sua essência. Apesar de tudo, nada daquilo que hoje pode ser chamado, de forma crítica, de “futebol moderno” representa um corte profundo no que foi o futebol desde a sua origem.

O futebol é uma língua-franca que nos abre portas para conversar no mundo inteiro. A violência pode ser derrotada e é essa a mensagem que nesse território em transformação no capitalismo importa sublinhar.

Apontei logo no início o eventual privilégio da existência de uma contracultura no seio do futebol. De certa maneira, algumas manifestações de regresso ao futebol popular nos nossos dias têm sido incapazes de lidar com a forma como a competição se impõe como um factor de base da existência do jogo. Quando duas crianças se encontram, no quintal da sua casa, para jogarem futebol, fazem-no pelo prazer do jogo, mas também o fazem para ganhar, para  serem superiores ao seu adversário.

Viver o futebol sem o entender dentro da competição é um privilégio que, quanto mais desfavorecido for o meio de onde emerge o adepto ou o candidato a jogador, mais difícil será de entender. O futebol, por tudo aquilo que pode ser - o campo da liberdade é imenso - é, acima de todas as coisas, uma maneira de procurar escapar às limitações que a nossa realidade prévia ao jogo nos impõe.

Apesar desta leitura não ser vista como muito otimista para a generalidade das pessoas, é de salientar a ideia de que é possível encontrar um futebol com base nas lutas progressistas, um jogo que potencie a geração de consequências positivas. O futebol continua a deter um poder de atração imenso, podendo e devendo ser um território de intervenção, da formação dos mais jovens para o entendimento do peso das questões sociais e culturais no apoio às equipas, na organização no jogo, da vivência do mesmo. 

O futebol gera também um forte investimento que pode e deve ser aproveitado para galvanizar a vida em zonas de cidades e países  menos favorecidos, tomando-o como ferramenta de inclusão. Finalmente, o futebol é uma língua-franca que nos abre portas para conversar no mundo inteiro. A tomada de consciência dessa linguagem e a força que ela nos permite não deve nunca ser desleixada ou menorizada pelo facto de, à primeira vista, a violência tentar imperar perante ela. A violência pode ser derrotada e é essa a mensagem que no futebol, território em transformação no capitalismo, importa sublinhar.