Doutorada em História. Tem-se dedicado a investigar as relações luso-espanholas durante o Marcelismo, o apoio da Espanha franquista ao Estado Novo na Guerra Colonial e os serviços de informação na contra-revolução do pós-25 de Abril de 1974.

A extrema-direita como solução extrema do imperialismo: A Aginter Presse em Portugal

A Aginter Presse foi uma das coberturas que organizações europeias de extrema-direita usaram para criar redes de espionagem por conta dos serviços secretos ocidentais. Estabeleceram acordos de colaboração e operações da "estratégia de tensão" para levar ao colapso os alicerces de governos de esquerda em qualquer lugar do mundo.

Ensaio
30 Julho 2021

As festas de fim de ano no coração da África Central terminaram com uma grande surpresa quando na madrugada do primeiro dia de 1966 o chefe do Estado-Maior da República Centro-Africana anunciou na rádio que o governo acabava de lhe entregar o poder, porque era a única forma de pôr ordem no país. Uma das primeiras decisões tomadas pelo coronel Jean Bedel Bokassa, assim que assumiu as rédeas do governo, foi dar 48 horas à embaixada chinesa para abandonar o país.

Enquanto em Bangui terminava com sucesso o golpe militar, em Paris, o general De Gaulle preparava-se para desejar, através da televisão, um feliz ano novo aos franceses. Quando o chefe de Estado ainda escrevia o seu discurso, o secretário-geral do Eliseu, Jacques Foccart, “o incontornável senhor África”, comunicou-lhe a notícia.

Naquela época, a república popular asiática não era notícia habitual, como o é hoje, devido à dimensão internacional da sua economia. Pelo contrário, costumava aparecer como país muito pobre, necessitado da caridade cristã, representada nos mealheiros do Domund, mesmo nos países mais atrasados ​​da Europa Ocidental.

No entanto, este não era o primeiro golpe no Terceiro Mundo ligado à China. Dez anos antes tinha sido deposto na Indonésia o presidente Sukarno, o qual tinha negociado com Pequim um empréstimo em condições muito vantajosas, e o ex-presidente do Congo-Brazzaville, o abade Fulbert Youlou, acabava de publicar um livro no qual acusava a China do seu derrube e de em África a estrela vermelha estar a substituir a cruz cristã.

O maior risco para o bloco capitalista era que chegassem ao poder governantes que, para alcançarem uma mínima soberania, se inclinassem a procurar ajuda junto de países socialistas.

Para grande surpresa da França e das demais potências coloniais, o governo da República Centro-Africana, presidido por David Dako, também tinha, imediatamente a seguir à independência, negociado com Pequim um empréstimo. Fê-lo no maior dos segredos e foi tornado público meses antes do golpe na República Centro-Africana.

Desde então que constava em Paris que o governo centro-africano temia "uma eventual subversão interna ou infiltrações do exterior", segundo documentos de Foccart, e que, caso não tivesse garantias de apoio francês, não hesitaria em recorrer novamente à ajuda do Congo-Brazzaville. E, em última instância, "aos bons ofícios chineses". As novas relações com a China de uma colónia recém-independente eram um exercício de soberania imperdoável, tanto em África como na Ásia.

Após o êxito do golpe, o futuro imperador Jean-Bédel Bokassa deu todo o tipo de garantias à embaixada francesa sobre a sua boa vontade para com a antiga metrópole. Mas, por ordem do general de Gaulle, Paris adotou uma atitude pública distante e reservada face ao acontecimento.

A França havia seguido um rumo mais independente nas relações externas desde a fundação da V República, em 1958. Uma vez convertida em potência nuclear, reclamava equivalência com as potências anglo-saxónicas, que não lha reconheciam. Abriram-se então brechas no bloco euro-atlântico por Paris dar prioridade às relações bilaterais com as potências socialistas e retirar as suas forças do comando unificado de NATO.

As boas relações com Moscovo e Pequim faziam parte da estratégia de De Gaulle, mas tal implicava manter a aparência de não intervenção na acção diplomática chinesa com os novos Estados afro-asiáticos, mesmo em áreas de tradicional influência francesa em diferentes continentes. Quem mais sofria desde que o movimento do Terceiro Mundo assumira uma tonalidade avermelhada era o governo norte-americano, que tinha as suas forças armadas cada vez mais atoladas na antiga Indochina Francesa.

Desde que Kwame Nkrumah, no Gana, e Sékou Touré, na Guiné-Conacri, haviam posto em marcha a cadeia de independências em África que os antigos impérios europeus enfrentavam o declínio definitivo, o que poderia favorecer países que não haviam participado na “Repartição de África” de 1885 – isto caso as antigas potências coloniais não fossem capazes de estabelecer um firme neocolonialismo. Mesmo os Estados Unidos, apesar de todo o seu poder económico e militar, estavam a viver essa realidade nas Antilhas, que haviam colonizado, ainda que em novas formas, depois de uma breve guerra com Espanha em 1898.

Como se comprovou no caso de Cuba, com Fidel Castro e antes com Gamal Abdel Nasser, no Egito, ou com Sukarno, na Indonésia, o maior risco para o bloco capitalista era que chegassem ao poder governantes que, para alcançar uma mínima soberania, se inclinassem a procurar ajuda junto de países socialistas. Foi o que Patrice Lumumba, no ex-belga Congo, ou Massamba-Débat, no ex-francês Congo, fizeram.

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Capa do livro a PIDE no Xadrez Africano
Capa do livro A PIDE no Xadrez Africano, da historiadora María José Tíscar e publicado em em 2017.

O crescente desentendimento entre a União Soviética e a China, desde que Nikita Krutchev assumira a chefia do governo soviético em 1958, poderia inclusivamente favorecer algumas novas vias políticas em África. E, além disso, o panorama também se veio a complicar para a potência imperial norte-americana por a força política de Cuba estar a crescer na cena internacional.

O protagonismo cubano, que havia impressionado o mundo ao desferir uma grande humilhação ao império norte-americano com a derrota da invasão na Baía dos Porcos, em 1961, estava prestes a atingir um patamar mais elevado com as cerimónias em Havana no início de 1966. Na primeira quinzena de janeiro desse ano, mais de 500 delegados de diferentes países reuniram-se, em resposta ao convite de Fidel Castro, na Conferência Tricontinental para se criar uma rede de solidariedade com as lutas dos povos do terceiro mundo.

O movimento tricontinental tinha uma dinâmica autónoma, à margem dos confrontos entre as tendências que criavam atritos na área socialista. A chave, segundo os seus organizadores, era encontrar o ponto de equilíbrio entre a China e a União Soviética, para assegurar as suas ajudas.

Como doloroso pano de fundo dos discursos proferidos em Cuba estava o recente sequestro e assassínio, em Paris, do marroquino Ben Barka, que presidira ao Comité Preparatório da Conferência. As palavras de Ernesto Che Guevara ressoaram numa sala em que, entre outras presenças, estavam Amílcar Cabral e Agostinho Neto. O revolucionário argentino com alma de cubano estava a dar os últimos passos na sua tentativa de instalar uma verdadeira guerrilha no Congo, apelando à luta anti-imperialista, com o objectivo de serem criados “dois, três, muitos Vietnames”. No Sudeste Asiático, os incessantes bombardeamentos contra o Vietname do Norte já se tinham estendido ao vizinho Laos e ameaçavam agora o Camboja.

Uma das respostas a esta iniciativa de dirigentes políticos socialistas, tendo em vista a internacionalização da resistência ao imperialismo capitalista, foi a proliferação de organizações anticomunistas.

Surgiu, de imediato, o primeiro exemplo na Ásia. Chiang Kai-shek, o Reverendo Moon e antigos combatentes alemães e japoneses fundaram em Taiwan a Liga Anticomunista Mundial, World Anticommunist Ligue (WACL). A esta organização aderiram figuras da corrente negacionista europeia, a qual imitava o partido nazi norte-americano, fundado por George Rockwell, e muitos dos seus membros escolheram Espanha como lugar de refúgio. Em território espanhol podiam contornar as condenações judiciais nos seus países de origem, resultantes do negacionismo do Holocausto.

A organização do Terceiro Mundo apresentada em Havana, que contava com o apoio das duas grandes potências socialistas, teve como consequência o acelerar da criação de organizações de extrema-direita na Europa, especialmente de carácter juvenil.

A própria tensão política da Guerra Fria preparava-se para se alargar com virulência a África, onde existia uma conjuntura particularmente prolífica de golpes de Estado e guerras de secessão, como a do Katanga, no antigo Congo Belga, apoiada pelos governos de Lisboa e Paris. Neste conflito envolveram-se durante três anos as antigas metrópoles europeias, ao serem uma importante componente operacional de grupos de mercenários, cuja utilização em África causou verdadeiro furor internacional. Tanto assim foi que centenas de mercenários foram contratados (The Congo Mercenary. A History and Analysis) na Bélgica, França, Grã-Bretanha, Itália, África do Sul, Espanha e Portugal.

Para desgosto dos antigos impérios europeus em África, alguns dos seus governantes fantoches já haviam caído e, para não comprometer a sua antiga metrópole, procuraram refúgios mais cómodos, esperando a hora de voltar aos seus antigos cargos. Foi o que aconteceu, no início do ano de 1966, com o Abade Fulbert Youlou, que, após longas horas de espera no aeroporto de Orly, foi impedido de entrar em território francês, acabando por desembarcar em Madrid.

A França viu-se obrigada a negar o acolhimento do ex-presidente do Congo-Brazzaville, mas a Espanha franquista ficou satisfeita em aceitar esses governantes africanos exilados, como Moisés Tshombé, ex-presidente de Katanga e depois primeiro-ministro da República Democrática do Congo (RDC). Além da protecção da polícia espanhola, os exilados contavam como apoio dos serviços secretos franceses e da PIDE portuguesa, representada pelo director-adjunto Agostinho Barbieri Cardoso, para organizar golpes que lhes permitissem regressar ao poder, ainda que, no final, nenhum o tenha conseguido.

Foi neste ambiente que nasceram na Península Ibérica organizações de ação armada contra o movimento comunista internacional que se estendia pelo Terceiro Mundo e que poderia privar o capital transnacional dos interesses que mantinha nas antigas colónias.

O internacionalismo anti-imperialista parecia tomar novas dimensões, mas o movimento comunista dentro do bloco capitalista ocidental, na altura com importante peso e renovado ímpeto, também não ficava atrás. Exemplo disso foi o crescimento do Partido Comunista Italiano (PCI) numa Itália onde a força da democracia cristã já não parecia suficiente para assegurar o controlo do Estado-membro da NATO, como acontecia desde 1948.

Depois de não conseguir infiltrar o PCI, a extrema-direita italiana começou a penetrar nos grupos maoístas e anarquistas. Nesta época, o neofascista italiano Stefano Delle Chiaie visitou repetidas vezes Espanha, França, Suíça, Áustria e Alemanha, onde estabeleceu contactos com o partido a União Social-Cristã da Baviera (CSU). Na sequência destas viagens estabeleceu relações com franceses ex-combatentes na Indochina e na Argélia, como Jean-Marie Laurent e Yves Guillou.

Foi neste ambiente que nasceram na Península Ibérica organizações de ação armada contra o movimento comunista internacional que se estendia pelo Terceiro Mundo e que poderia privar o capital transnacional dos interesses que mantinha nas antigas colónias.

A Espanha franquista, que já tinha dado o seu melhor acolhimento aos fascistas fugidos de diferentes países da Europa no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, vinha dando refúgio aos derrotados de outros combates, como os da guerra na Argélia e que não tinham aceite a independência. Após o fracasso dos acontecimentos conhecidos como “A Semana das Barricadas”, em resposta ao anúncio de um referendo sobre a autodeterminação da colónia francesa, dois dos mais activos elementos do movimento dos pied-noir, o deputado e ex-paraquedista Pierre Lagaillarde, e Jean-Jacques Susini, Presidente da Associação de Estudantes da Argélia, refugiaram-se em Espanha, tal como o General Raoul Salan, outros militares franceses e civis pertencentes a organizações de direita.

Estes exilados criaram, a 11 de fevereiro de 1961, no edifício Torre de Madrid, na capital espanhola, a Organisation Armée Secrète (OAS) (Historie de l’OAS), que em abril levou a cabo um golpe militar falhado em Argel. Depois da independência da Argélia, uma grande parte dos operacionais da OAS refugiaram-se em Portugal, em Espanha e em Itália.

Na sequência do apoio logístico de algumas personalidades espanholas à organização do putsch em Argel, o general Franco adotou uma postura mais dura perante os atritos nas relações com o governo do general De Gaulle. Alguns dos responsáveis pela OAS em Espanha foram detidos e as atividades da organização passaram a estar mais controladas.

A França, devido à necessidade de controlar estes elementos, estabeleceu, por iniciativa do General Paul Jacquier, uma importante ligação entre o serviço secreto francês (SDECE) e a PIDE (Histoire Politique des Services SecretsFrançais: De la Seconde Guerre Mondial à Nos Jours)  no quadro da luta anti-OAS, dirigida pelo comissário-geral das Informações Paul Guepattre.

Depois de se dedicar por mais de quatro anos a um frenesim de violência, matando milhares de pessoas e tentando, sem sucesso, acabar com a vida do presidente De Gaulle, a OAS viu-se obrigada a renunciar à sua actividade. Quando o governo francês deu por suficientemente controlados os efeitos da guerra na Argélia, lançou a “Operação Reconciliação”, destinada a superar os traumas da independência, designadamente no meio militar. Portugal levava então cinco anos de guerra colonial.

Pelo seu empenho em manter um império nos moldes mais tradicionais, Portugal era, desde 1961, uma exceção no panorama internacional. Tinha sobrevivido apesar das ofensivas diplomáticas nas Nações Unidas e da Organização para a Unidade Africana (OUA). Conseguiu-o graças aos apoios encobertos de França, de Espanha e da República Federal de Alemanha e de cumplicidades de governos africanos vizinhos nas colónias, mas também daqueles onde se tinham produzido independências brancas, como a Rodésia ou a África do Sul.

Após a breve presidência norte-americana de John F. Kennedy, crítica do colonialismo português, os Estados Unidos voltaram a concentrar-se na contenção comunista em Ásia e a administração de Lyndon B. Johnson não causou atritos em Lisboa. Foi um alívio para o governo português, que continuava a dispor dos Açores como meio de pressão nas relações com Washington.

Em meados dos anos 1960, as forças da extrema-direita europeia, nomeadamente as de Itália, de Portugal e de Espanha, renasceram. Há muito que existia um vínculo de união na defesa do fascismo e das diversas formas de tradicionalismo católico, derivado da convivência no bando franquista durante a Guerra Civil espanhola (1936-1939). Começaram-se a reagrupar e a operar em força dentro daquela que ficou conhecida como “estratégia da tensão”, já antes praticada em França e na Argélia.

Isto levou ao nascimento de novas operações de propaganda, de agitação e de acção. Umas a descoberto, outras sob cobertura de alguma forma de empresa ou de instituições estatais.

Ordem e Tradição - OACI

Foi neste ambiente de fortalecimento do anticomunismo no Terceiro Mundo que algumas das organizações criadas nos anos 1920, na fase crescente do fascismo, ganharam uma nova vida. Foi o caso da Ordem e Tradição (OT).

A insegurança socioeconómica que alguns países europeus haviam sofrido nos anos 1920, após o final da Primeira Guerra Mundial, levou a que alguns movimentos de pequenos grupos de intelectuais burgueses evoluíssem para organizações mais activas. Assim, em outubro de 1926, um pequeno grupo suíço, criado pelo jovem Marcel Regamey, em Lausana, alargou-se aos sectores estudantis e fundou a Ordem e Tradição.

O objectivo da organização era combater o liberalismo decadente que não podia fazer frente aos novos inimigos – os socialistas, os estrangeiros e os judeus, essencialmente. O liberalismo não conseguia, argumentavam, assegurar a manutenção dos valores tradicionais, baseados na ordem natural e na hierarquia de classes estabelecida. A OT afirmava querer combater “as forças do Mal”, “quer dizer o comunismo internacional, e seus satélites conhecidos e desconhecidos”.

A Ordem e Tradição queria ser uma espécie de Internacional Fascista. Tinha um regulamento interno e os seus membros organizavam cerimónias secretas, usavam designações em código e era-lhes exigido um compromisso de honra.

Mas nos seus inícios, para além das proclamações internas, a OT manteve-se no quadro teórico e na propaganda e agitação do meio intelectual e académico. O ambiente após a II Guerra Mundial não lhe era propício, uma vez que os planos expansivos do capitalismo norte-americano na Europa, combinados com as concessões sociais feitas pelos governos social-democratas e um adequado aparelho de propaganda, criaram a miragem que irmanava o "mercado livre" com a democracia. Além disso, e a pouco a pouco, iam sendo deixadas no esquecimento as evidências extremas que permitiram ao capitalismo prosperar, primeiro na Alemanha de Bismarck e depois na de Hitler.

Mas, com o crescimento da área de mercado socialista na Europa e na Ásia e a ameaça de uma perda progressiva de mercado nos novos países recém-descolonizados, uma parte daqueles militantes da ordem tradicional, agora imbuídos de um espírito guerreiro a que não queriam renunciar, procuraram os meios para realizar actividades mais contundentes.

Em meados dos anos sessenta, a OT já possuía ramificações em Portugal, tais como o Jovem Portugal ou a Ordem Nova, que tinham dado um importante apoio ao acolhimento dos operacionais da OAS no país. Muitos conseguiram trabalho à conta de instituições do Estado português: Yves Guillou, conhecido como Guérin-Sérac, obteve a carta de jornalista profissional da Presidência do Conselho português e Jean Vallantin estava bem situado, devido ao facto de seu pai, Jean Alfred Vallantin, ser tradutor do Ministério dos Negócios Estrangeiros e professor de francês em diversos órgãos do governo português, inclusivamente no Ministério da Defesa Nacional.

A Ordem e Tradição, que pretendia ser uma espécie de Internacional Fascista, tinha um regulamento interno e os seus membros organizavam uma espécie de banquetes com cerimónias secretas, usavam designações em código (às vezes pseudónimos) e era-lhes exigido um compromisso de honra. Dos três pontos do programa de acção da Ordem e Tradição (propaganda, informação e acção armada), a via da luta armada era o que tinha mais problemas para se concretizar.

A oportunidade para desenvolver o terceiro ponto programático da OT começou quando Portugal precisou de agentes em África, pois já não podia usar os próprios e existiam, ao mesmo tempo, elementos da ex-OAS disponíveis no país e na vizinha Espanha com ligações a outros países da Europa e da América. O facto de nos últimos anos se reunirem tantos derrotados das guerras imperialistas e haver um panorama tão agitado no Terceiro Mundo despertou o interesse para se criar uma nova organização com vocação militar.

Assim, a Ordem e Tradição, estrutura de carácter doutrinário, criou uma organização militar paralela, denominada Organização Armada contra o Comunismo Internacional (OACI), da qual fazia parte o grupo de militares operacionais fugidos da Argélia e, em conjunto com intelectuais da extrema-direita francesa, passaram a utilizar as siglas OT-OACI.

A ideia de criar a OACI terá partido de Guérin-Sérac, de Guido Giannettini, jornalista italiano que trabalhava para as informações da rede Gládio e do antigo oficial das SS refugiado em Espanha, Otto Skorzeny. Giannettini tinha estabelecido contacto com Guérin-Sérac através de membros da OAS exilados em Itália, como Jean-Jacques Susini e Georges Bidault, e actuava como agente de ligação entre estes e o governo italiano. O primeiro encontro entre os dois terá sido em 1964, por intermédio de Jean-René Souetre, quando Giannettini foi a Lisboa entregar uma carta a Humberto de Sabóia, residente em Portugal desde a proclamação da República Italiana, em 1948.

A OACI assentou em três pilares geográficos: Portugal, Itália e Espanha e foi estabelecendo ligações com outros grupos que, entretanto, surgiram. Criou-se uma espécie de Liga Ocidental capaz de intervir em qualquer lugar do mundo, contra qualquer manifestação de comunismo. É de se destacar a presença de um importante número de jornalistas nestes grupos, pois atuavam como agentes infiltrados capazes de aniquilar por dentro as organizações de base marxista.

Para tal, a OACI seleccionava três tipos de elementos: ex-militares com experiência em guerras coloniais, agentes de informação e, ainda, intelectuais com alguma influência em meios jornalísticos e académicos. Incluía teóricos do neofascismo e do corporativismo, como Henry de Rouxel ou Derouxel, conhecido como “Brecourt”, e jornalistas como Vicente Pepper e Jean Brune. Também tinha nas suas fileiras antigos militantes de organizações de juventude de extrema-direita, como Hugues-Stephane Hélie, Bonnet Gauthier, o qual estabelecia em Madrid contactos com adidos militares e procurava apoios para a organização.

O planeamento da OT-OACI baseava-se em aproveitar toda a forma de revolta ou protesto social na Europa e de movimentos de emancipação ou governos colaboradores noutros continentes, especialmente em África e na América. Esperavam, com as suas atividades, conduzir a uma situação de tensão contínua e insuportável, com o objectivo de levar a sociedade a exigir uma ordem assegurada por um governo forte.

Com efeito, como acontecera nos anos 1920, esta fórmula de ação política respondia ao medo da hipótese de chegarem ao governo elementos comunistas. Existia uma profunda preocupação nos meios políticos ocidentais, nomeadamente nos anglo-saxónicos, de que o PCI conseguisse chegar ao governo e que retirasse a Itália da estrutura militar da NATO, como De Gaulle tinha feito em França.

O caso francês ainda estava fresco nas mentes dos decisores políticos ocidentais, por mais não fosse por as potências do bloco capitalista se terem visto privadas de bases militares muito importantes, como a da Sardenha ou a de Nápoles, num momento em que a esquadra de guerra soviética alargava a sua presença no Mediterrâneo.

Neste contexto de Guerra Fria e de guerra nas colónias portugueses, a extrema-direita da OT-OACI e a PIDE uniram esforços para um trabalho em conjunto em África. O contacto entre o grupo OT-OACI e as autoridades portuguesas foi estabelecido por Jacques Ploncard d’Assac, o conhecido autor de artigos de propaganda política fascista e refugiado em Lisboa desde a queda do regime de Vichy.

A criação da Aginter Presse

Os agentes desta internacional de extrema-direita produziam propaganda radiofónica e recorriam a diferentes coberturas jornalísticas, tendo sido utilizadas publicações de aparência esquerdista, como foi o caso da suíça L’Étincelle e de outras de reconhecido pendor direitista, como Oltremare e Il Tempo, de Itália, ou Progrès, jornal da direita de Lyon. Eram também usadas acreditações das editoras Sorlot e Hachette ou de Le Nouvel Observateur.

Para além da cobertura como repórteres de jornais ou revistas, os homens da OACI valiam-se de empresas de importação/exportação e disfarçavam-se de agentes comerciais de diverso género, conselheiros técnicos e especialistas em marketing, para camuflagem do aprovisionamento de armas e explosivos. Também foram utilizadas empresas como a Harth y Cia., a Safari, a H. de Noblet, a Investigaciones/Prospeccciones Comerciales, a Peugeot e, por fim, a AirLiquid.

Os grandes objectivos da OT-OACI eram favorecer a instalação do caos em todas as estruturas de um país com o fim de sabotar a economia e semear a confusão, até ser atingido um nível de desespero social que gerasse um estado de ânimo anti-social contra as organizações políticas, nomeadamente as da esquerda marxista. A primeira ação consistiu em infiltrar os grupos pró-chineses, como aconteceu no Partido Comunista Suíço/Marxista-leninista, para poder atribuir ao comunismo as responsabilidades pela violência neofascista que se pretendia impulsionar.

Portugal não tinha até então precisado de agentes de informações externos. A PIDE conseguira estender os seus tentáculos nas colónias, acompanhando o alastrar da guerra, e contava com a colaboração do pessoal diplomático, que a ajudava a criar e a alargar a rede de informadores. Chegou, inclusive, a haver uma importante cooperação entre comandos militares, responsáveis da PIDE e chefes de missão diplomática, quer em África, quer nas capitais europeias, nomeadamente em Paris e em Madrid, onde foram gizadas uma importante parte das operações encobertas em África.

Para além da espionagem do inimigo interno do regime, a PIDE desempenhava funções de contra-espionagem e promovia operações encobertas. Neste campo, o uso de operacionais estrangeiros podia ser de algum interesse, embora também pudesse trazer grandes inconvenientes, daí que esta hipótese de trabalho não contasse com unanimidade dentro dos órgãos do governo português.

Os grandes objectivos da OT-OACI eram a instalação do caos em todas as estruturas de um país para sabotar a economia e semear a confusão. O desespero social deveria gerar ânimo anti-social contra as organizações da esquerda marxista.

Com o triunfo do Estado francês sobre a OAS, o executivo de De Gaulle pôde permitir-se convidar membros desta organização para colaborarem com os seus serviços secretos no permanente objectivo de controlar interesses económicos e estratégicos franceses em países africanos.

Após a amnistia de 1966, os elementos da OAS ficaram igualmente disponíveis para serem usados por outros governos que tivessem interesse em levar a cabo diferentes tipos de operações encobertas noutros países, como era o caso de Portugal. Além do mais, a língua destes antigos operacionais da OAS era o francês, usado no Congo-Kinshasa e no Congo-Brazzaville, principais territórios onde teriam de actuar, bem como no Senegal e na Guiné-Conacri. 

Os interesses comuns de Portugal e de França facilitaram a colaboração entre a PIDE e os serviços franceses que operavam em África por via de ações de intervenção ou golpes de Estado, para manter ou repor no poder os seus políticos de confiança. Este era o caso da República Democrática do Congo (RDC), onde Paris e Lisboa lutavam contra os Estados Unidos para recolocar no poder Moisés Tshombé, que aguardava pela sua oportunidade em Espanha.

No dia a seguir ao fim das operações da OAS, em consonância com a aprovada amnistia francesa, a 19 de junho de 1966, teve lugar uma reunião na sede da PIDE, em Lisboa, para tratar da “Operação Tshombé”, que contava com financiamento belga e apoio dos serviços franceses dedicados às operações de destabilização de governos africanos. O objetivo era substituir, em Kinshasa, Mobutu pelo exilado Tshombé.

Esta foi a ocasião para que o principal dirigente em Portugal da recém-criada OACI, Yves Guérin-Sérac, contando com Jacques Souetre, na Bélgica, começasse a recrutar mercenários por toda Europa. Queria organizar um pequeno exército que se deveria juntar aos gendarmes catangueses, refugiados em Angola desde o exílio de Tshombé e aos homens do conhecido mercenário belga Jean Schramme.

O primeiro fracasso da Aginter Presse

A até então aparente tranquilidade das relações bilaterais luso-congolesas desapareceu quando, a 23 de junho de 1966, rebentou a revolta dos mercenários e gendarmes catangueses, fiéis a Tshombé. Esta operação contra Mobutu em Kinshasa foi um fracasso.

Na semana seguinte à tentativa de repor Tshombé no governo do Zaire, Mobutu promulgou a lei conhecida como “Bakajika”, declarando o solo e o subsolo congolês a propriedade do Estado, ao mesmo tempo que iniciava o processo de zairização. Depois do falhanço do golpe para o derrubar, Mobutu fez Portugal pagar duramente a sua colaboração.

Dois meses mais tarde, a 23 de agosto, deu-se o assalto à embaixada portuguesa em Kinshasa e o corte de relações diplomáticas e comerciais com Lisboa. Esta decisão deixou Portugal sem a grande rede de informadores que o embaixador Vaz Pinto tinha tecido e que valia, em termos de guerra, “como um batalhão de paraquedistas no chão”, como refere John Cann (Contra-insurreição em África (1961-1974). O Modo Português de Fazer a Guerra).

O objectivo destas redes, para além das informações que podiam fornecer, era o de infiltrar os movimentos nacionalistas africanos para os conhecer por dentro, produzir cisões, confrontos ou divergências internas que os enfraquecessem, apoiar golpes de Estado, organizar operações de desestabilização da ordem pública e operações encobertas, tudo sob falsa bandeira.

O corte de relações de Portugal com o Zaire veio juntar-se aos que se vinham acumulando desde a criação da Organização da União Africana, em 1963 e ao que se tinha produzido em 1965 com o Congo-Brazzaville, devido à colaboração portuguesa no golpe, conhecido como “Operação Barbarossa”, que tentou derrubar Massamba-Débat.

Os agentes portugueses vinham acumulando dificuldades à sua actuação na maior parte dos países africanos, mas agora ficavam impedidos de actuar em todos os países vizinhos de Angola, ao serem encerrados os centros vitais que eram as embaixadas em Brazzaville e em Kinshasa. Angola ficou então rodeada de governantes em pé de guerra contra o governo português: Kaunda na Zâmbia, Massamba-Débat em Brazzaville e Mobutu no Congo-Kinshasa. A PIDE ficou sem instrumentos para operar nas áreas de retaguarda da FNLA e da UNITA, e o MPLA avançava.

Em março de 1966, o MPLA abriu em Angola a frente Leste, o que complicou o cenário e obrigou o comando português a pensar em novas acções de neutralização da guerrilha na frente Norte, a fim de poderem ser deslocados efectivos para a nova área afetada pela insurreição.

Era então necessário intervir no Congo-Brazzaville para tentar mudar o regime, mediante o apoio às organizações oposicionistas, que contavam com elementos dispersos noutros países africanos e na antiga metrópole. A colaboração com acções dos serviços secretos franceses a operar nos Estados da antiga África francesa já tinha existido em diferentes ocasiões, com operações tendentes à mudança dos regimes políticos.

Estas operações passadas tinham visado aliviar a pressão do MPLA, a partir da margem direita do rio Zaire. Com base em Angola, começaram também a ser postos em marcha planos de desestabilização na Zâmbia para obrigar o presidente Kenneth Kaunda a entender-se com Portugal e a abrandar o seu apoio à UNITA e ao MPLA.

Foi neste contexto que, em Luanda, as autoridades coloniais estabeleceram os planos que submeteram aos seus superiores na capital portuguesa, para que tomasse forma uma cobertura legal que permitisse contornar a situação. A diplomacia portuguesa, em boa sintonia com a PIDE, também tinha solicitado esforços para conseguir informadores nos estados vizinhos de Angola, deitando mão de agentes estrangeiros (Diplomacia Peninsular e Operações Secretas na Guerra Colonial) devido às dificuldades em conseguir a colaboração de nacionais residentes nestes países.

Tendo em conta os problemas de circulação de agentes portugueses nos países limítrofes das colónias, a PIDE esforçou-se na recolha de informações encarando a possibilidade de recrutar indivíduos de nacionalidade não portuguesa que, pela sua própria língua e conveniente cobertura, pudessem circular livremente através dos países africanos. Com esse objetivo em mente, responsáveis portugueses em África e operacionais franceses com experiência nestes serviços voltaram a reunir-se, acabando por se propor um contrato com a futura Aginter Presse.

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Capa do livro A Contra-Revolução no 25 de Abril
Capa do livro A Contra-revolução no 25 de Abril - os "Relatórios António Graça" sobre o ELP e Aginter Presse, da historiadora María José Tíscar e publicado em 2014.

Dado que a PIDE não estava habilitada a desenvolver uma operação desta envergadura, propôs à Defesa Nacional e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) que contribuíssem financeiramente, uma vez que a diplomacia tinha perdido na prática a totalidade das suas redes em África. O Ministério da Defesa e a PIDE aproveitaram para suprir as deficiências em informação e capacidade de acção em África contra a crescente agitação nas colónias.

Para dar cobertura às actividades, pagas pelo Estado português, de agentes mercenários da OACI na intervenção directa na área africana, foi criada, em Lisboa, em setembro de 1966, uma agência noticiosa de nome Aginter Presse. Ficou sediada no escritório do antigo paraquedista francês, Jean Marcel Vallentin, agora representante comercial de vários produtos, através da sua empresa “Representações para Portugal”.

Os fundadores da agência foram sete antigos oficiais franceses, ex-combatentes das guerras coloniais, quer na Indochina, quer na Argélia, dos quais só um permaneceria em Portugal: Yves Guillou. Os outros seis seriam itinerantes: Jean Marcel Vallentin, Reingeard de la Blétiêre, Jean-Joseph Guillou, Avezac de Castera, Jean-Marie Laurent e o seu irmão, Jean-Daniel Laurent. Este último era locutor de A Voz do Ocidente, programa internacional da Emissora Nacional e professor de artes marciais em organismos dependentes do Ministério da Defesa Nacional.

O núcleo central da Aginter Presse era constituído por esses antigos operacionais franceses da OAS e elementos norte-americanos ligados à Liga Mundial Anticomunista (WACL), como Jay Salby. Mais conhecido por Sablosky e pelo pseudónimo “Castor”, por causa da cabeleira que usava, Salby era um dos operacionais da direita internacional: integrava diferentes movimentos na Europa e na América Latina. Além disso, possuía experiência em operações especiais em Estados centro-americanos, uma vez que foi agente da norte-americana CIA.

Na mesma altura da criação da Aginter Presse em Lisboa, nasceu em Barcelona a CEDADE (Círculo Español de Amigos de Europa), que manteve permanentes contactos com personalidades do fascismo internacional e veteranos da II Guerra Mundial e que logo estabeleceu relações com os exilados alemães, romenos, franceses e croatas que conseguiram refúgio em Espanha.

Este círculo foi considerado pelo Parlamento Europeu como o maior e melhor organizado destes grupos na Europa, de acordo com o relatório sobre os trabalhos da Comissão de inquérito à escalada do fascismo e do racismo na Europa, de dezembro de 1985. A organização aspirava superar os velhos métodos tradicionais da direita nacional, misturando elementos da velha Falange com jovens neonazis que queriam desenvolver uma ideologia de marcado nacionalismo europeísta (La Extrema Derecha Española en el Siglo XX). A organização possuía representações na América Latina, nomeadamente na Argentina, onde era dirigida pelo francês Jacques de Mathieu e relações com grupos da extrema-direita europeia.

O presidente da primeira junta directiva, Ángel Ricote Sumalla, foi um dos espanhóis no círculo da Aginter Presse. Na ação exterior, Ricote acabou por ser um dos elementos mais activos e estabeleceu contacto com o francês Jean-Marie LePen, com militantes de Ordre Nouveau e participou nos “Congressos da Nova Ordem Europeia”. A sua residência, na Diagonal barcelonesa, chegou a ser um lugar de encontro para elementos de todos os movimentos desta internacional fascista.

A acção da Aginter Presse na África portuguesa

Sob cobertura da Aginter Presse tiveram início as operações de infiltração nos países limítrofes das colónias portuguesas. A agência instalou-se na Tanzânia, país vizinho de Moçambique, para penetrar a FRELIMO e o escolhido para levar a cabo a operação encoberta foi Robert Henry Leroy, antigo combatente na guerra civil espanhola ao lado dos carlistas. Leroy serviu ainda na Legião Valona das SS, com Léon Degrelle e acabou, mais tarde, por se exilar em Madrid, onde aderiu à OT-OACI e trabalhou nas informações da NATO por mais de três anos, após ter sido amnistiado em França, em 1955.

Depois desta, foram lançadas outras operações cujos alvos eram o MPLA e o PAIGC. Uma delas foi a que permitiu a agentes da Aginter Presse contactar com Agostinho Neto e outros dirigentes do MPLA. As actividades da falsa agência noticiosa estenderam-se a Brazzaville, onde estava sediado o MPLA, para infiltrar o movimento de libertação nacional fazendo “regressar” alguns dos seus elementos mais significativos, como tinha sido feito antes com a FNLA, em Kinshasa. O caso mais significativo foi o do angolano Alexandre Taty, que após o falhanço da “Operação Barbarossa” abandonou a FNLA. Uma vez refugiado em Cabinda, apoiou os portugueses na luta contra o MPLA.

O núcleo central da Aginter Presse era constituído por antigos operacionais franceses da OAS e elementos norte-americanos ligados à Liga Mundial Anticomunista (WACL), como Jay Salby.

Todavia, na Guiné, a operação de infiltração não teve sucesso, ainda que um dos seus operacionais tenha conseguido contactar Luís Cabral e visitar a base de S. Domingos na sua companhia.

Em dezembro de 1966, a Aginter Presse alargou os contactos para conseguir o apoio de pessoas influentes em diversos âmbitos de outros países: os de Labin, em França e de Nicolás Franco, em Espanha. Em Madrid, Alain Gauthier contactou adidos militares americanos nas Embaixadas da Nicarágua e da Guatemala.

Destacam-se, também, os contactos com o norte-americano William Buckley, jornalista com vasta influência política na Casa Branca; com latino-americanos, como o venezuelano Pepper, que depois de trabalhar nas informações para o presidente da República Dominicana, Rafael Trujillo, se tinha instalado em Espanha; o peronista Bruno Albieux, conhecido como Miguel Loria, ou o alemão Lothar Lohrish, que trabalhava com uma empresa financiada pelo governo de Bona na difusão de uma imagem branqueada do exército alemão.

Estenderam, igualmente, as ligações a Portugal, onde um dos agentes mais activos foi Jean-Marie Laurent, o qual contactou com Maria da Paz Barros Santos, directora da “Voz do Ocidente” da Emissora Nacional. Em janeiro de 1967 foi contactado o jornalista Valentim Gomes Serra, depois correspondente do Jornal de Benguela, em Portugal. Igualmente procurado foi o apoio de estrangeiros residentes em Lisboa, como o adido de informação da embaixada da África do Sul e o jornalista Hans Kurt.

No quadro deste movimento realizou-se em Lisboa, em janeiro de 1967, uma primeira reunião com elementos de extrema-direita (Império, Nação e Revolução. As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974)) provenientes de Portugal, Espanha, França, Suíça, Alemanha Ocidental, Suécia, Argentina e Paraguai e com a notável ausência de representantes italianos.

Os organizadores tentaram pouco depois, em maio, superar o vazio italiano com um outro encontro internacional na sede da Ordem e Tradição em Lisboa e, no último dia, foi realizada uma reunião entre o delegado da Ordine Nuovo e os membros da OT Guérin-Sérac e Jean Marie Laurent.

Nesse encontro internacional, os presentes insistiram na necessidade de uma cooperação mais forte entre ambas as organizações nos três vectores de actuação: jornalístico, propagandístico e acção armada. Por esta altura, os dirigentes da Ordine Nuovo não estavam convencidos a lançar-se em actividades mais arriscadas e, por isso, ficaram-se pela colaboração no campo das informações e da propaganda.

Novas tentativas de golpes em África

A 21 de agosto de 1967, teve lugar uma nova reunião na sede da PIDE entre alguns mercenários, militares congoleses e funcionários portugueses com o fim de se preparar uma operação cujo objectivo seria uma nova intervenção em Kinshasa, destinada a mudar o governo congolês aí instalado, derrubando Mobutu: a “Operação Lucifer”.

Os objectivos concretos eram os clássicos da estratégia de tensão, própria da guerra não ortodoxa. Começar-se-ia por organizar um levantamento popular com o apoio de elementos voluntários, explorando o descontentamento geral, acompanhado pela propaganda contra um regime tirânico, para depois favorecer a intervenção de comandos catangueses. A Operação Lucifer saldou-se num desastre: em pouco mais de uma semana, os mercenários partiram para solo angolano para evitarem o massacre face ao contra-ataque das tropas de Mobutu.

Outra das operações levadas a cabo, em 1967, na África Central foi o Plano COST (Consortium pour l’Organization et le Support Téchnique) para derrubar o governo de Brazzaville. A operação contou com o envolvimento da Aginter Presse, da PIDE, do Gabão, da África do Sul, da Rodésia e dos serviços especiais franceses. Na antiga colónia francesa do Gabão, a Aginter Presse tinha contactos com gerentes de plantações, missionários e mesmo algumas personalidades locais, mas divergências entre os serviços franceses e a PIDE (L’Orchestre Noir) fizeram com que a operação fracassasse.

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Logótipo da Aginter Presse
A Aginter Presse foi uma agência de notícias internacionais de fachada para a extrema-direita atuar em Portugal e nas antigas colónias durante a ditadura do Estado Novo.

Na sequência do fracasso destas intervenções em Brazzaville contra Massamba-Débat, foram presos Jacques Dépret (Debreton), recrutado por conta da Organização da Informação e Ação (ORA) sediada em Frankfurt, na Alemanha Ocidental, e o capitão Mathieu, recrutador de mercenários nas praças habituais europeias, nomeadamente Genebra.

Também foi preso, em Brazzaville, Jean-Marie Laurent, acusado de desenvolver actividades para derrubar o governo congolês, o que surpreendeu os funcionários da embaixada da China no país. É que Laurent apresentou documentos oficiais para justificiar a sua condição de jornalista do L’Étincelle, órgão do partido pro-chinês suíço, pois fora a própria embaixada da República Popular China em Berna a recomendar o contacto em Brazzaville.

Uma outra operação visou o antigo Congo francês. Chamaram-lhe “Operação Tornado” e nela participou um grupo de congoleses que tinham fundado a Frente de Resistência e Libertação do Congo-Brazzaville. Dirigido pelo antigo chefe da polícia francesa Maurice Bat, desenvolveram acções psicológicas e de propaganda para derrubar Massamba-Débat e reconduzir o abade Youlou ao poder.

A contrapartida do apoio colonial seria o compromisso dos golpistas em entregar todos os elementos terroristas que actuam contra Portugal na República Popular do Congo, o restabelecimento de relações diplomáticas e a defesa dos interesses portugueses junto de outros Estados africanos e nas organizações internacionais.

Mas os objectivos desta operação, tal como de outras que se seguiram, não foram alcançados. E para isso muito contribuíram os contingentes cubanos estacionados no país, ao conseguirem manter sob controlo pontos nevrálgicos do território congolês.

Os governos que procuravam livrar-se do neocolonialismo das suas antigas metrópoles, como era o caso da República Popular do Congo, para os quais Cuba era um modelo (Conflicting Missions. Havana, Whashington and Africa, 1959-1976) ao resistir às múltiplas agressões dos EUA, tinham começado a receber diversas ajudas de países socialistas e isso, por sua vez, permitiu aos movimentos de libertação nacional da África portuguesa adquirir um maior grau de organização e capacidade para manter não só a luta armada, mas também a batalha diplomática.

A crise da Aginter Presse de Lisboa

Terminado o contrato inicial, em outubro de 1968, entre a Aginter Presse e a PIDE, esta última pediu o prolongamento das operações da primeira, mas os resultados não estavam a ser satisfatórios e o MNE considerou que não valia a pena gastar-se mais dinheiro nesta rede.

Apesar da insistência do subdirector Barbieri Cardoso, o Ministério da Defesa Nacional também acabou por deixar de financiar a rede e o Ministério do Ultramar mostrou igualmente uma aberta desconfiança para com a participação dos serviços franceses, que manobravam a Aginter Presse nalgumas das operações que visavam derrubar o governo de Brazzaville das quais Salazar contava com um conhecimento directo (A Guerra Secreta de Salazar em África).

Na sequência da actuação de alguns elementos que trabalhavam para a Aginter Presse de Lisboa, surgiram atritos com os serviços franceses, que, por sua vez, lançaram um verdadeiro ultimato à polícia política portuguesa justificado pela necessidade de garantir a própria segurança dos seus operacionais. Foi um ultimato recebido num mau momento: a PIDE estava naquele momento a preparar um novo golpe em Brazzaville.

Nesta altura, em França, o movimento Occident, criado quatro anos antes como cisão da Federação de Estudantes Nacionalistas (FEN) e que usava a cruz celta da Ordre Nouveau, repetia como palavra de ordem “matar os comunistas onde quer que se encontrem”. A Occident estava em plena fase de mudança do “romantismo adolescente”, que tinha vingado nos primeiros tempos da organização, para uma aliança com as bases da direita tradicional, herdeira de Charles Maurras.

Esta organização, que dizia defender o Ocidente contra o Oriente marxista, passara a apoiar a estratégia dos EUA, inclusivamente na guerra do Vietname, contra a qual se alargavam os protestos a muitas cidades do mundo. As acções dos “Occidentaux”, como força provocadora dos militantes de extrema-esquerda, em diversas universidades francesas, multiplicaram-se e a esquerda anarquista estava a responder com ações que depois levariam aos levantamentos de Maio do 1968 contra De Gaulle, que persistia na aproximação aos países socialistas.

Além do mais, o presidente francês estava a fragilizar a segurança monetária internacional ao reclamar o câmbio dos dólares do Banco de França pelo ouro que garantia o dólar, a única moeda convertível desde os acordos de Bretton Woods, em 1944.

Depois do fim do contrato com o Estado português, os operacionais da falsa agência noticiosa dispuseram-se a estender a “estratégia de tensão” de África para a Europa, onde alguns Estados também recorreram aos seus serviços.

Nesta situação, a ligação do movimento Occident com os velhos operacionais da OAS com actividade em África constituía uma grande preocupação para o governo de Paris. Segundo os serviços franceses, “as suas posições eram violentamente anti-governamentais e a colaboração com os serviços portugueses e este pequeno grupo não podia ser mais que prejudicial para as boas relações franco-portuguesas”.

O desconforto dos serviços franceses era palpável e as atividades de agentes itinerantes começaram de imediato a produzir alguns receios nos movimentos de libertação africanos. Também a embaixada da República Popular da China, que se tinha surpreendido com o jornalista de L’Étincelle, questionou-se sobre as viagens do repórter a Portugal, ao Malawi e a Moçambique. De facto, no Quénia foram tomadas precauções e Leroy foi impedido de se deslocar nas zonas a sul do país, consideradas estratégicas.

Esta falta de confiança tinha a reciprocidade da parte portuguesa noutras instâncias da PIDE/DGS, diferentes das que controlava o subdirector Barbieri Cardoso. Por exemplo, Álvaro Pereira de Carvalho, diretor de serviços na recém batisada DGS, era muito reticente em subordinar-se aos serviços franceses nas operações encobertas que Morichot-Beaupré, ex-redactor-chefe do Courrier de la Colère e mão direita do poderoso Jacques Foccart, dirigia em África, pelo sistemático posicionamento destes em tirar partido das acções, sem arriscarem nada.

Na opinião de Pereira de Carvalho, não eram dadas garantias suficientes que compensassem os riscos que Portugal corria em algumas operações no antigo Congo francês. Por exemplo, garantias que impedissem a internacionalização do conflito angolano ou a extinção do principal inimigo das tropas portuguesas, que naquela área era o MPLA. Além de atritos políticos e diplomáticos com serviços como o francês SDECE ou o norte-americano FBI, a Aginter Presse não produziu nenhum resultado palpável para a situação com que o regime português se confrontava nas colónias.

A Aginter Presse também gizou a Operação Chèvre para a Guiné, planeada em 1969, contra o governo de Conacri que contava com a colaboração da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, do MNE e da Casa de Portugal em Paris, bem assim como de oposicionistas a SékouTouré, com apoio de um diplomata senegalês. Mas também aqui a operação se saldou por um fracasso.

Decidido a prescindir dos operacionais da Aginter Presse, o governo português procurou em 1969 uma aproximação a Mobutu, resultando num encontro diplomático na embaixada do Zaire em Bruxelas. Este processo culminou, no início de 1970, com o envio de uma missão portuguesa ao Zaire, actuando sob cobertura da embaixada espanhola, pois foi Espanha quem assumiu a representação dos interesses portugueses em Kinshasa, após o corte de relações havido em 1966.

A partir do discreto acordo com Mobutu, foi a própria PIDE, desde 1968 rebaptizada DGS, quem, a partir da Embaixada de Espanha no Zaire (A PIDE no Xadrez Africano), se encarregou de estender uma rede de informadores para Oeste, na bacia do Congo, e para Leste, na Tanzânia, visando compensar as dificuldades das informações estratégicas no terreno e a infiltração dos movimentos de libertação das colónias portuguesas, sediados nestes países.

Depois do fim do contrato que lhes assegurava a manutenção em Portugal, os operacionais da falsa agência noticiosa dispuseram-se a estender a “estratégia de tensão” de África para a Europa, onde alguns Estados também recorreram aos seus serviços. A colaboração entre os serviços secretos portugueses e franceses continuou até 1974, quando se deu o golpe militar que culminou na Revolução dos Cravos, mas já sem a colaboração de operacionais a coberto da Aginter Presse.

A organização que se servia da cobertura desta agência de imprensa começou então a diluir-se em Portugal e, de fato, em 1970, só permaneciam em Lisboa uns poucos elementos que passaram a atuar em Itália e em Espanha. A Aginter Presse manteve alguma estrutura em Portugal e, em outubro de 1970, criou em Lisboa uma sociedade, a Banque Photo-Publicité d’Aginter, que tinha por objecto declarado trabalhos fotográficos e topográficos.

O atentado da Piazza Fontana, em 1969 e no qual morreram 17 pessoas e outras 88 ficaram feridas, foi o ponto culminante da fase em que organizações italianas de extrema-direita realizaram ataques aleatórios contra a população civil.

Em Espanha nasceu outra organização de extrema-direita, o Partido Español Nacional-Socialista (PENS), que em 1969 organizou o XI Congresso da Nova Ordem Europeia, em Barcelona. O grupo vinha atuando em coordenação com o serviço secreto criado pelo vice-presidente do governo espanhol, almirante Carrero Blanco, o Servicio Central de Documentación (SECED). E, em Madrid, surgiu também a Fuerza Nueva, cujo objectivo era a manutenção dos princípios do “Movimento do 18 de Julho”, data do levantamento militar fascista que culminou na Guerra Civil Espanhola, que se estavam a enfraquecer com a evolução do Franquismo.

A “estratégia de tensão” que diversos Estados europeus vinham a aplicar nas suas ex-colónias, com o intuito de destituir governos que não correspondiam aos seus interesses, foi posta em prática com uma intensidade crescente nos países da Europa Ocidental. Os países que se tornaram teatro de operações foram aqueles onde existia o risco de partidos comunistas chegarem ao poder pela via eleitoral, mesmo que através de coligações com sociais-democratas ou democratas-cristãos, e o caso mais relevante foi o de Itália.

Foi para território italiano que se dirigiram as actividades do neofascismo internacionalizado, que desde a II Guerra Mundial atuava noutros palcos mundiais. Na primavera de 1969, teve início o período que ficou conhecido como “Os Anos de Chumbo” e no qual a Avanguardia Nazionale, cisão da Ordine Nuovo, fundada por Stefano delle Chiaie, teve um protagonismo especial ao longo da década de 1970.

Durante dois anos, foram chegando a Roma instrutores da Aginter Presse para dar formação, no uso de explosivos, aos militantes da Avanguardia Nazionale. Guido Giannettini, um dos agentes do internacionalismo fascista e fundador da OT-OACI, participou activamente na organização operacional desse período. Tal como Giannettini, delle Chiaie tinha fortes vínculos com a Aginter Presse.

O atentado da Piazza Fontana, em 1969 e no qual morreram 17 pessoas e outras 88 ficaram feridas, foi o ponto culminante da fase em que organizações italianas de extrema-direita realizaram ataques aleatórios contra a população civil. Tinham como objetivo desacreditar os comunistas e anarquistas italianos e causar medo na população para se mobilizar apoio em torno de um regime com mão pesada.

À semelhança do que aconteceu com operações encobertas nos países africanos, a atividade da “estratégia de tensão” da extrema-direita italiana teria tido grande dificuldade em alcançar os seus objectivos, especialmente o da culpabilização da esquerda marxista, sem a cooperação de certas unidades dos serviços de inteligência e do aparelho policial italianos.

Em dezembro de 1970 chegou a estar próxima uma tomada de poder violenta para pôr à frente do Estado italiano o “Príncipe Negro”, Junio Valério Borghese, antigo alto chefe militar de Benito Mussolini e presidente do Fronte Nazionale. O golpe foi travado quando já estava a decorrer.

Depois de 1945, o sistema capitalista não precisou mais de financiar grandes movimentos fascistas. Bastou usá-los para evitar que chegassem ao governo partidos que pudessem realizar mudanças socioeconómicas.

Após o fracassado golpe de dezembro de 1970, Valério Borghese, assim como o seu principal agente, Stefano delle Chiaie, refugiaram-se em Espanha, onde contavam com a protecção da CEDADE. Outros dos implicados na organização do golpe instalaram-se em Alicante (Espanha), onde também estava sediado o Grupo Paladin, no qual estes operacionais da Aginter Pressese juntaram a refugiados nazis que mantinham as suas actividades, agora sob a cobertura de uma empresa de segurança privada.

Em França, foi criado em 1972, a partir da Ordre Nouveau, a Frente Nacional tendo em vista as eleições legislativas do ano seguinte. Nele se integraram os antigos OAS, retornados da Argélia, vichistas, católicos tradicionalistas e anti-gaullistas do Movimento pela Justiça e a Liberdade, de Georges Bidault. Este movimento publicava o jornal Militant, defensor do ultraliberalismo, da identidade nacional e tão claramente atlantista como anticomunista.

Nos Estados Unidos, durante a presidência de Richard Nixon, foi utilizada a WACL para acções de contra-insurreição no Sudeste Asiático e na América Latina, e a ela aderiram, entre outros, Hugo Banzer, Rafael Videla e Alfredo Stroessner. Todos eles fizeram parte do grupo de grandes peões da Operação Condor na América Latina, depois do golpe de 11 de Setembro de 1973 no Chile. Foi aí que a guerra não ortodoxa atingiu o seu apogeu no século XX.

Conclusão

Após a derrota no campo de batalha do fascismo em 1945, as organizações de extrema-direita, nascidas das crises do capitalismo no período entre guerras, ficaram adormecidas e alguns dos seus membros refugiaram-se na Península Ibérica. Neste canto da Europa sobreviveram os Estados corporativos de modelo italiano e com influência intelectual do tradicionalismo francês, para quem o retorno aos valores da ordem e da tradição era a solução para os problemas trazidos pela expansão do socialismo real.

As guerras coloniais, resultantes da influência comunista na Ásia e em África, em apoio dos movimentos de libertação, transferiram o cenário da luta anticomunista para esses continentes e, mais tarde, para a América Latina, pois a revolução cubana demonstrou a sua capacidade de resistência.

O anticomunismo acabou por servir de cimento comum para as diferentes posições do conservadorismo doutrinário e facilitou as ligações e posterior criação de formas de organização supranacional contra a existência do Estado soviético e o progresso dos partidos comunistas no mundo. Algumas dessas organizações foram utilizadas pelos serviços estatais para operações de intervenção interna ou externa, proibidas pelas suas próprias leis.

A Aginter Presse, oficialmente uma agência de imprensa, foi uma das múltiplas coberturas que organizações europeias de extrema-direita usaram para implantar redes de espionagem por conta dos serviços secretos de Estados ocidentais.

Nos parênteses entre as duas guerras mundiais do século XX, comprovou-se que o capitalismo é um sistema económico que adopta, consoante o contexto e para sua conveniência, distintas aparências políticas. Se o comportamento do parlamentarismo liberal não garantir a sua sobrevivência nas crises cíclicas, pode recorrer a estruturas cuja forma mais extrema é o fascismo.

Mas, após 1945, para sobreviver, o sistema capitalista não precisou mais de financiar grandes movimentos fascistas, como os que se instalaram no poder no período entre guerras. Bastou utilizá-los, se necessário fosse, para evitar que chegassem ao governo partidos ou dirigentes que pudessem realizar mudanças socioeconómicas ou geoestratégicas que pusessem em risco a sua hegemonia, ou para que, no caso de conseguirem alcançar o poder, não o pudessem conservar.

Para tal fim foram utilizados os grupos necessários para se conseguir um clima de tensão social e asfixia económica que desestabilizasse e facilitasse a sua queda. O exemplo que mostrou ao mundo essa táctica, em todo o seu esplendor, foi a guerra não ortodoxa contra Salvador Allende no Chile. Mas essa fórmula não foi uma novidade, pois já antes tinha sido usada com sucesso no Irão, na Guatemala ou na Indonésia, por exemplo.

Nos anos 1960, África foi o principal cenário da "estratégia de tensão" e nele Portugal desempenhou um papel importante, por ter sido o último império europeu a travar uma guerra colonial no continente.

A Aginter Presse, oficialmente uma agência de imprensa com sede em Lisboa, foi uma das múltiplas coberturas que organizações europeias de extrema-direita usaram para implantar redes de espionagem por conta dos serviços secretos de Estados ocidentais. Estabeleceram acordos de colaboração e operações próprias da "estratégia de tensão" com o fim de levar ao colapso os alicerces de governos de esquerda em qualquer lugar do mundo, que incluíam o uso de falsos movimentos de libertação, ou golpes de estado clássicos em diferentes lugares do mundo. Começaram em África e depois passaram para a Europa. Tudo isto em dimensões muito modestas e que, na parte operacional, tinha a grande concorrência de organizações de mercenários, mais profissionalizadas.

Portugal precisava de todas as armas para conduzir uma guerra colonial em três frentes militares, mas também para a frente diplomática, onde chegou a estar impedido de atuar no terreno. Os restos da OAS, refugiados em Portugal após o fim da Guerra da Argélia, criaram uma organização para operações encobertas, a OT-OACI, que funcionava relacionando-se com serviços secretos de outros países.

Após serem amnistiados pelo Estado francês, o regime português aproveitou a ocasião. A Defesa Nacional e a PIDE tinham dificuldades na recolha de informações em diferentes estados de África. Sendo difícil para os agentes portugueses circular nos países africanos que mais podiam interessar para recolha de informação de carácter estratégico (os dois Congos, Zâmbia, Guiné-Conacri, Senegal e Tanzânia), era essencial que agentes de outras nacionalidades, possuidores de uma cobertura adequada, tentassem alcançar os objectivos desejados.

"No fundo, era uma pequena seita que fazia negócio do anticomunismo, constituída, na sua maior parte, por antigos membros da OAS", escreveu António Graça num dos relatórios que sobre a documentação apreendida na sede da Aginter Presse após o 25 de Abril. Faziam-no em ligação com operacionais italianos e espanhóis que, rescindido o seu contrato com a PIDE, estenderam as suas actividades a outros países da Europa nos "Anos do Chumbo".

Fizeram-no com o objectivo de impedir governos com tendências socialistas e de recuperar a ordem e a tradição que consideravam dever reinar na Europa e que tinha desaparecido desde o triunfo da revolução russa e da derrota do fascismo em 1945.