Curioso por natureza, sempre a tentar aprender algo novo, sou jornalista por vocação e atualmente diretor-executivo da Sábado.

Conversas com terroristas

Ao longo dos anos pensei muitas vezes no que estava a fazer. Se a ideia de contar as histórias destas pessoas com o objetivo de as compreender e, dessa forma, evitar que outros sigam o mesmo caminho estava correta ou se, pelo contrário, estaria apenas a contribuir para aumentar a sua visibilidade.

Ensaio
10 Março 2022

Estávamos nos primeiros dias de 2015. Sentados no sofá da sala, eu e a minha mulher víamos com entusiasmo o 9º episódio da 4ª temporada da série Homeland. Uma organização terrorista tinha atacado uma coluna de veículos norte-americanos como manobra de diversão para o verdadeiro alvo: a embaixada dos Estados Unidos em Islamabad, no Paquistão. O episódio terminava com o líder do grupo jihadista a entrar nas instalações da missão diplomática por um túnel secreto. Estávamos no auge dessa tensão quando a minha mulher olha para mim com o ar mais natural do mundo e diz: “é com estes tipos que andas a falar”.

Aquela frase fez-me colocar os pés na terra. Olhei para ela e para o telemóvel e não foi preciso pensar muito para saber que ela - como é costume - tinha razão. Há meses que passava uma boa parte dos meus dias a trocar mensagens com alguns dos portugueses que se tinham juntado ao auto-proclamado Estado Islâmico (EI). E o que começara um pouco a medo tinha evoluído para um debate constante em que ideias, visões diametralmente opostas do mundo, comentários à atualidade, frases frias e cortantes eram entrecortadas com piadas, emojis e simpatias, e em que um silêncio de vários dias me deixava a pensar se algo teria acontecido aos meus “amigos” terroristas.

Estávamos no auge dessa tensão quando a minha mulher olha para mim com o ar mais natural do mundo e diz: “é com estes tipos que andas a falar”.

O meu envolvimento nesta história - que dura até hoje - tinha começado no início de 2014. Estava na redação da Sábado quando olhei para a televisão e vi um indivíduo encapuzado, sentado nas margens do rio Eufrates, a apelar à migração de muçulmanos para a Síria. De arma na mão, dizia chamar-se Abu Isa Al Andalus, ser de Portugal e era apresentado como um ex-colega de Cristiano Ronaldo no Sporting.

Era 1 de abril. A parte do melhor jogador do mundo era mentira, mas o resto não: aparentemente havia portugueses que estavam naquele momento a lutar na Síria, país já então palco de uma intensa guerra civil, em que grupos jihadistas ora eram apoiados pelo Ocidente na luta contra Bashar al Assad, ora eram considerados perigosos terroristas, parte do que então era simplesmente referido como a Al Qaeda no Iraque. Recordo-me de ser assaltado por uma intensa curiosidade: o que fazia um português num grupo jihadista, a lutar numa terra distante? Quem seria? Haveria mais? O que os teria levado lá? Estariam dispostos a falar sobre isso?

Ainda andava a tentar perceber como todas estas peças poderiam encaixar quando o Relatório Anual de Segurança Interna desse ano respondeu a algumas das minhas perguntas. Em três pequenos parágrafos num documento de 478 páginas, publicado a 13 de abril, referia-se a ascensão do EI e o movimento de cidadãos europeus para palcos da jihad, incluindo cidadãos portugueses e luso descendentes envolvidos em redes terroristas transnacionais, como combatentes ou recrutadores.

Iniciei então um período de intensa pesquisa para tentar documentar-me ao máximo sobre aquela realidade desconhecida. Isso implicou muitas horas de leitura para absorver conceitos, e estruturas organizacionais, apreender nomes e locais, revisitar aulas de história, consultar livros e falar com especialistas na matéria.

Ao mesmo tempo passava horas sem fim a tentar apanhar o comboio de um novo fenómeno que tinha apanhado muitos de surpresa: a utilização das redes sociais como plataforma de recrutamento e de apologia do terrorismo. Era por aí que alguns desses portugueses podiam ser contactados.

À medida que os dias passavam, a frustração crescia na mesma medida em que ia vendo a concorrência a publicar histórias sobre estas pessoas que eu tentava procurar e compreender. Até que a insistência deu frutos.

Através do Facebook tinha enviado uma mensagem para o perfil antigo de Fábio Poças, um dos portugueses que se sabia que tinham viajado para a Síria e que lutava então nas fileiras do EI, que tinha proclamado um califado a 29 de junho desse ano. Já não esperava resposta quando no domingo, 5 de outubro de 2014, acordei com uma mensagem. Era um endereço de correio eletrónico. Enviei imediatamente um email a explicar que queria falar com ele para compreender os motivos que o tinham levado a abandonar a vida na Europa e a ir combater numa guerra distante como parte de um grupo terrorista. Eram 8h53m. Nesse mesmo minuto a mensagem veio devolvida. O Hotmail tinha bloqueado o endereço. A adrenalina foi substituída por um balde de água fria.

Lembrei-me então de usar aquele email para encontrar a sua nova página no Facebook, aquela que me escapava há meses. Em segundos estava a olhar para o perfil não de Fábio Poças, mas de Abdurahman Al Andalus. Em vez do rapaz que jogava futebol, aparecia o homem armado e a bandeira do EI ao ombro. Enviei uma mensagem. A resposta foi curta, não parecia de um jovem de 21 anos: “terá de escolher as suas palavras com sabedoria, Sr. Pinto.”

Esse domingo foi passado assim: agarrado ao telemóvel a trocar mensagens com um declarado terrorista. Do messenger passámos para o WhatsApp. Cada resposta, sempre educada, fazia surgir novas perguntas.

Durante meses, qualquer que fosse a ocasião, lá estava ele. Primeiro a responder às minhas perguntas. Depois a tentar converter-me ao Islão. A tentar mostrar-me a suposta supremacia do Corão como livro divino em comparação com a bíblia. A argumentar sobre a superioridade da Sharia em relação às leis do homem. A defender os benefícios das sociedades muçulmanas em relação às corruptas vidas ocidentais. Mas também a gozar comigo por ter apenas uma mulher em vez de várias, dizendo que estava a “perder o comboio”. Ou a fazer piadas crípticas sobre o comportamento dos companheiros portugueses que, dizia, pediam um milhão de dólares para falar comigo.

Essas conversas podiam ser tranquilas e interessantes como chocantes e violentas. E ocorrer em qualquer lado. Recordo-me de trocar mensagens com terroristas na sede nacional da Polícia de Segurança Pública, enquanto estava numa sessão de fisioterapia, numa visita às instalações da Polícia Judiciária, a assistir a um jogo de futebol, enquanto estava na casa de familiares ou amigos, no supermercado ou num concerto. Tornou-se uma constante. E apesar de o facto de ver constantemente os vídeos de atrocidades cometidos pelo EI (sempre na expetativa de detetar algum dos portugueses nessas filmagens) nos canais de propaganda do grupo terrorista em aplicações encriptadas, aquela frase da minha mulher abalou-me: “é com estes tipos que andas a falar”.

Realmente era. Ao longo dos anos pensei muitas vezes no que estava a fazer. Se a ideia de contar as histórias destas pessoas com o objetivo de as compreender e, dessa forma, evitar que outros sigam o mesmo caminho estava correta ou se, pelo contrário, estaria apenas a contribuir para aumentar a sua visibilidade.

Depois de muito ponderar continuo a achar que o conhecimento é a melhor vacina. Porque tal como os populistas e extremistas dos dois lados do espectro político, os terroristas têm hoje sistemas de comunicação direta com os seus públicos.

 

E sem os jornalistas para enquadrar, filtrar e explicar claramente quem são, o que fazem e o que defendem aquelas pessoas, a missão destes grupos jihadistas seria muito mais fácil - e terrível.

É por isso que seis anos e dois livros sobre o assunto depois, continuo a escrever sobre os portugueses que se juntaram a grupos jihadistas e o que é feito pelas autoridades para combater o fenómeno terrorista. Entrevistei-os e aos seus familiares e amigos, fui aos bairros e países onde viviam, segui em reportagem para locais de atentados onde vi com os meus olhos o que outros como eles fizeram e dei voz aos seus sobreviventes, expliquei da melhor forma possível como eles convenciam outros, arranjaram dinheiro para se financiar, falei com as suas mulheres, passei horas infindáveis a falar sobre o assunto com responsáveis do contra-terrorismo e serviços secretos ocidentais, mostrei quem são estas pessoas que nos querem destruir, sempre na esperança de que isso evite que outros o façam e que a sua compreensão permita pôr em prática medidas para prevenir a radicalização de novos jovens.

Porque o que torna o jornalismo tão especial é a capacidade que, através das nossas palavras, temos para mudar um pouco o mundo. Para ajudar os outros a compreender realidades tão distintas das nossas que parecem irreconciliáveis e sem sentido. Para mostrar o mundo. Mesmo que isso implique correr alguns riscos. Porque é essa a nossa missão.

Este testemunho foi originalmente publicado no Manual de Reportagem REC, organizado por Pedro Coelho, Ana Isabel Reis e Luís Bonixe, e editado pelos Livros Labcom em 2021.