Economista, político e escritor. Secretário-geral do partido DiEM25 e antigo ministro das Finanças da Grécia.

Angela Merkel foi má para a Europa e para o Mundo

Os 16 anos de governo de Angela Merkel na Alemanha chegaram, efetivamente, ao fim. Ao longo desse tempo a chanceler alemã tornou-se a líder europeia mais poderosa em tempos de paz. À custa da própria Europa.

Ensaio
10 Dezembro 2021

O mandato de Angela Merkel será lembrado como o mais cruel paradoxo da Alemanha e da Europa. Por um lado, dominou a política do continente como nenhum outro líder em tempo de paz - e vai deixar a chancelaria alemã consideravelmente mais poderosa do que a encontrou. Mas a forma como construiu este poder condenou a Alemanha ao declínio secular e a União Europeia à estagnação.

Declínio Potenciado pela Riqueza

Não há dúvida de que a Alemanha é hoje mais forte política e economicamente do que quando Merkel se tornou chanceler em 2005. Porém, as razões são as mesmas pelas quais o seu declínio está assegurado numa Europa em estagnação.

O poder da Alemanha é o resultado de três enormes excedentes: o comercial, o excedente estrutural do governo federal e as entradas de dinheiro de outras pessoas nos bancos de Frankfurt, como resultado de uma lenta e interminável crise do euro.

Enquanto a Alemanha nada em dinheiro, cortesia destes três excedentes, este é maioritariamente desperdiçado. Ao invés de investi-lo em infraestruturas do futuro, públicas ou privadas, é exportado (por exemplo, investido no estrangeiro) ou usado para comprar ativos que não dão rendimento na Alemanha (por exemplo, apartamentos em Berlim ou ações da Siemens).

Porque é que as empresas alemãs, ou o governo federal, não podem investir estes rios de dinheiro de forma produtiva na Alemanha? Porque - e aqui reside parte do cruel paradoxo - estes excedentes existem porque não são investidos!

Baixo investimento interno, austeridade universal e virar os povos europeus uns contra os outros: foi assim que os governos de Merkel transferiram riqueza e poder para a oligarquia alemã.

Por outras palavras, no reinado da senhora Merkel, a Alemanha fez um pacto com o diabo: ao restringir investimentos, adquiriu excedentes do resto da Europa, e do mundo, que posteriormente não podia investir sem abdicar da sua capacidade futura de extrair mais excedentes.

Analisando melhor a sua origem, os enormes excedentes que deram poder à Alemanha sob a presidência da senhora Merkel são resultado de forçar os contribuintes alemães e, mais tarde, os contribuintes europeus a socorrer os banqueiros ineptos de Frankfurt sob a condição de engendrarem uma crise humanitária na periferia da Europa (na Grécia em particular) - um meio pelo qual o governo de Merkel impôs austeridade sem precedentes aos trabalhadores alemães e não alemães (de forma desproporcional, claro).

Em suma, baixo investimento interno, austeridade universal e virar os orgulhosos povos europeus uns contra os outros foram os meios pelos quais sucessivos governos de Merkel transferiram riqueza e poder para a oligarquia alemã. Infelizmente, estes meios também levaram a uma Alemanha dividida, que está agora a perder a próxima revolução industrial numa União Europeia em fragmentação.

Três episódios dão uma visão de como Merkel exerceu o seu poder em toda a Europa para construir, passo a passo, o cruel paradoxo que será o seu legado.

Episódio 1: Socialismo Pan-Europeu para os Banqueiros Alemães

Em 2008, quando os bancos em Wall Street e em Londres ruíram, Angela Merkel ainda estava a alimentar a imagem de uma chanceler de ferro financeiramente prudente e avarenta. Apontando um dedo moralista aos banqueiros libertinos da anglosfera, fez manchetes num discurso em Estugarda em que sugeriu que os banqueiros americanos deveriam ter consultado uma dona de casa da Suábia, que lhes teria ensinado uma ou outra coisa sobre a gestão das suas finanças.

Imaginem o seu terror quando, pouco depois, recebeu uma enxurrada de telefonemas ansiosos do seu ministério das Finanças, do seu banco central e dos próprios conselhereiros económicos, todos eles transmitindo uma mensagem imperscrutável: chanceler, os nossos bancos também estão falidos! Para manter os multibancos a funcionar, precisamos de uma injeção de 406 mil milhões de euros do dinheiro dessas donas de casa suábias - para ontem!

Foi a definição de veneno político. Enquanto o capitalismo mundial tinha um espasmo, Merkel e Peer Steinbrück, o seu ministro das Finanças social-democrata, anunciavam uma austeridade para a classe trabalhadora alemã, defendendo o mantra padrão e autodestrutivo de apertar o cinto numa enorme recessão.

Merkel obrigou cidadãos eslovacos e portugueses a pagar um empréstimo que iria momentaneamente para os cofres do governo grego antes de chegar aos banqueiros alemães e franceses.

Como poderia agora Merkel aparecer perante os próprios membros do parlamento - a quem durante anos tinha dado lições sobre as virtudes de se ser somítico no que tocava a hospitais, escolas, infraestruturas, segurança social e ambiente - a implorar que passassem um cheque tão avultado aos banqueiros que até segundos antes tinham estado a nadar em rios de dinheiro?

Sendo a necessidade a mãe da humildade forçada, a chanceler Merkel respirou fundo, entrou no esplêndido Bundestag, concebido por Norman Foster, transmitiu as más notícias aos parlamentares estupefactos e saiu com o cheque solicitado.

“Pelo menos está feito", deve ter pensado. Só que não estava. Uns meses mais tarde, outra enxurrada de chamadas pediram um número semelhante de milhões para os mesmos bancos. Porquê? O governo grego estava prestes a ir à falência.

Se fosse, os 102 mil milhões de euros que devia aos bancos alemães desapareceriam e provavelmente, pouco depois, os governos de Itália, Grécia e Irlanda incumpririam o pagamento de cerca de meio bilião de euros em empréstimos aos bancos alemães. Entre eles, os líderes de França e da Alemanha tinham um interesse de cerca de um bilião de euros em não permitir que o governo grego dissesse a verdade, ou seja, confessasse a sua falência.

Foi então que a equipa de Angela Merkel sucedeu, encontrando, pela segunda vez, uma forma de socorrer os banqueiros alemães sem informar o Bundestag de que era isso que estavam a fazer: retratariam o segundo salvamento dos bancos como um ato solidário para com os gafanhotos da Europa, o povo da Grécia.

E obrigariam outros europeus, como os ainda mais pobres eslovacos e portugueses, a pagar um empréstimo que iria momentaneamente para os cofres do governo grego antes de chegar aos banqueiros alemães e franceses.

Desconhecendo que estavam de facto a pagar pelos erros dos banqueiros alemães e franceses, os eslovacos e finlandeses, tal como os alemães e franceses, acreditaram que tinham de assumir as dívidas de outro país. Assim, em nome da solidariedade para com os insofríveis gregos, a senhora Merkel tinha plantado as sementes da aversão entre povos orgulhosos.

Episódio 2: Austeridade Pan-Europeia

Quando o Lehman Brothers faliu em setembro de 2008, o seu último CEO suplicou ao governo estado-unidense por uma linha de crédito gigantesca, de forma a manter o seu banco a funcionar.

Suponhamos que, em resposta, o presidente dos EUA tinha dito: "Não há salvamento e, além disso, não autorizo que abra falência!" Seria completamente absurdo.

Merkel salvou veladamente os bancos alemães e a austeridade universal começou a espalhar-se como um incêndio que deflagrou na Grécia antes de se alastrar a toda a Europa.

E, ainda assim, foi precisamente isso que Angela Merkel disse ao primeiro-ministro grego em janeiro de 2010, quando este desesperadamente suplicou por ajuda para evitar declarar a bancarrota do estado grego.

Foi como dizer a uma pessoa que está a cair: "não te vou apanhar, mas também não estás autorizada a cair no chão."

Qual era o objetivo de um duplo nein tão absurdo? Dado que Merkel insistiria sempre que a Grécia aceitasse o maior empréstimo da história — como parte do segundo salvamento oculto dos bancos alemães (ver acima) —, a explicação mais plausível é também a mais triste: o seu duplo nein, que durou alguns meses, conseguiu infundir tal desespero no primeiro-ministro grego que, eventualmente, este aceitou o programa de austeridade mais esmagador da história.

Assim, mataram-se dois coelhos com um salvamento: Merkel salvou veladamente os bancos alemães uma segunda vez, e a austeridade universal começou a espalhar-se pelo continente, como um incêndio que começou na Grécia antes de se alastrar a todo o lado, incluindo França e Alemanha.

Episódio 3: Ao Fim Amargo

A pandemia ofereceu a Angela Merkel uma última oportunidade de reunir a Alemanha e a Europa.

Era inevitável uma nova vasta dívida pública, até na Alemanha, uma vez que os governos procuravam substituir rendimentos perdidos durante o confinamento. Se houve momento para romper com o passado, era aquele.

O momento urgia que os excedentes alemães fossem investidos numa Europa que, simultaneamente, democratiza os seus processos de tomada de decisão. Mas o ato final de Angela Merkel foi assegurar que este momento também seria perdido.

O fundo de recuperação da senhora Merkel garante a intoxicação da guerra de classes da Europa e da divisão norte-sul: transferirá riqueza dos mais pobres do Norte para as oligarquias do sul da Europa.

Em março de 2020, num ataque de pânico harmonizado após os nossos confinamentos à escala da União Europeia, treze chefes de governos da UE, incluindo o presidente francês, Emmanuel Macron, exigiram que a UE emitisse dívida pública (uma então chamada eurobond) que ajudaria a transferir a crescente dívida nacional dos fracos ombros dos estados-membros para a UE como um todo, de modo a evitar uma austeridade massiva ao estilo grego nos anos pós-pandémicos.

Sem surpresas, a chanceler Merkel disse nein e ofereceu-lhes um prémio de consolação sob a forma de um fundo de recuperação que nada faz para ajudar a arcar com o aumento das crescentes dívidas públicas nacionais - ou para ajudar a pressionar a transição dos excedentes alemães acumulados para os interesses a longo prazo da sociedade alemã.

À típica maneira de Merkel, o propósito do fundo de recuperação era parecer fazer o mínimo necessário daquilo que é do interesse da maioria dos europeus (incluindo a maioria dos alemães), sem de facto o fazer! O ato final de sabotagem da senhora Merkel teve duas dimensões.

Merkel fabricou casualmente uma crise humanitária no meu país para camuflar o salvamento de banqueiros alemães.

Primeiro, a dimensão do fundo de recuperação é, intencionalmente, macroeconomicamente insignificante. Ou seja, demasiado pequena para defender as pessoas e comunidades mais fracas da UE da austeridade que eventualmente virá quando Berlim der a luz verde para a "consolidação fiscal", a fim de reinar as crescentes dívidas nacionais.

Em segundo lugar, na realidade, o fundo de recuperação transferirá riqueza dos mais pobres do norte (por exemplo, alemães e holandeses) para as oligarquias do sul da Europa (como empreiteiros gregos e italianos) ou para empresas alemãs que gerem serviços públicos do sul (por exemplo, a Fraport, que gere agora os aeroportos da Grécia).

Nada poderia garantir mais eficazmente a intoxicação da guerra de classes da Europa e da divisão norte-sul do que o fundo de recuperação da senhora Merkel - o ato final de sabotagem da unidade económica e política europeia.

Um Lamento Final

Merkel fabricou casualmente uma crise humanitária no meu país para camuflar o salvamento de banqueiros alemães praticamente criminosos, enquanto virava orgulhosas nações europeias umas contra as outras.

Sabotou intencionalmente todas as oportunidades para aproximar os europeus. Conspirou habilmente o enfraquecimento de qualquer genuína transição verde na Alemanha ou na Europa. Trabalhou incansavelmente para fragilizar a democracia e evitar a democratização de uma Europa irremediavelmente antidemocrática.

E, mesmo assim, ao ver o bando de políticos anónimos e banais que se acotovelam para a substituir, receio bastante vir a sentir saudades de Angela Merkel. Mesmo que a minha avaliação do seu mandato permaneça analiticamente a mesma, suspeito que, em breve, pensarei nele de forma mais afetuosa.

Artigo originalmente publicado na Jacobin Magazine.