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Alain Krivine: a Revolução não lhe passou com a idade

Quem foi Alain Krivine? A resposta mais curta e direta é: um revolucionário em permanência até ao fim. Quando outros se fizeram à vida ou tiraram do Maio de '68 a lição de que a revolução seria impossível, Krivine concluiu o contrário. 

Ensaio
7 Abril 2022

Punhos ao alto, cravos nas mãos, um caixão a ser transportado e homenageado em silêncio. No final de março, milhares de pessoas deslocaram-se ao cemitério de Père-Lachaise, em Paris, para se despedirem de Alain Krivine, falecido na semana anterior, a 12 de março. Aí conviveram bandeiras e símbolos de vários partidos de esquerda, militantes de muitas causas sociais, pelo menos dois candidatos presidenciais e mais dois outros ex-candidatos. Uma união rara numa esquerda francesa há muito fragmentada.

A braços com a destruição devastadora da guerra no seu país, um partido ucraniano fez questão de se juntar às centenas de mensagens de homenagem enviadas ao longo da semana passada. O Sotsialnyi Rukh (Movimento Social) não esqueceu o francês que esteve presente no seu congresso de fundação e, nos “tempos difíceis” que vive, celebrou-o como “fonte de inspiração” para “continuar a resistência e fazer avançar a vitória sobre as forças da exploração da guerra”.

Mas quem foi Alain Krivine? Para a maioria será um nome desconhecido. Não foi um teórico de referência nem um escritor de renome, foi um candidato presidencial de resultados modestos, um dirigente de um relativamente pequeno partido francês sem representação parlamentar, eurodeputado por um breve mandato, um participante decisivo mas menos famoso da revolta estudantil de Maio de 1968.

Foi tudo isso sem remorsos, penteando a história a contrapelo, como escrevia o seu amigo Daniel Bensaïd. E, contudo, foi muito mais. Esse “muito mais” talvez seja difícil de explicar (ou melhor, eu é que não o consigo fazer), mas fez dele uma referência política única. Referência que reivindico como minha como se fosse necessária uma declaração de interesses, e referência da esquerda revolucionária francesa, do campo trotskista, da corrente política mundial agrupada na Quarta Internacional.

O protagonismo dentro da Frente Universitária Antifascista valeu-lhe um atentado à bomba que rebentou com o seu quarto.

Referência nossa, porque foi um dos nossos. E de tantos outros, como provam os obituários que se foram sucedendo e onde se repetem invariavelmente as mesmas palavras: compromisso, fidelidade, coerência, integridade, otimismo. Mais do que palavras de circunstância, atestam algo que ele próprio já tinha explicado. Como referia ironicamente no título da sua autobiografia, “isso” não lhe “passou com a idade”, ao contrário de muitos outros da sua geração que se renderam ao comodismo ou ao carreirismo.

A militância, uma vida. E teria sido tão fácil e lucrativo fazer diferente. Esta persistência de quem não se rende não é pouco. É mesmo uma raridade nos dias que correm. E, ainda assim, continua a parecer pouco para me fazer entender. Talvez a sua história fale melhor do que quaisquer elogios de quem o conheceu ou foi por ele influenciado.

A adesão ao trotskismo

Quem foi Alain Krivine? Nascido em Paris, a 10 de julho de 1941, numa família de origem judaica ucraniana, aderiu muito novo ao comunismo, influenciado pelos irmãos. Juntou-se aos 15 anos à organização de juventude do Partido Comunista Francês (PCF) e, entre 1958 e 1965, foi membro do Comité Nacional da União dos Estudantes Comunistas.

O jovem e brilhante organizador cedo entrou em choque com esta corrente. Conta-se que a sua dissidência começou onde menos se podia esperar: em Moscovo. Em 1957, como prémio por ser um vendedor exemplar do jornal L’Avant-Garde, Alain participou no Festival Mundial da Juventude Democrática na capital russa. Aí encontrou-se com jovens da Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN), críticos da linha seguida pelo PCF que exigia então “paz na Argélia” e não a independência pela qual lutavam. De regresso, acabou por se juntar à “Jovem Resistência”, uma rede de apoio à FLN de atividade semi-clandestina.

Ainda dentro do PCF, em 1961, criou a Frente Universitária Antifascista, iniciativa unitária de base que responde ao golpe de extrema-direita dos generais franceses que tentavam impedir a independência argelina. Este protagonismo valeu-lhe um atentado à bomba que rebentou com o seu quarto.

Há alguns anos que se havia aproximado dos trotskistas, mas só em 1966 se deu o corte definitivo com o PCF. Tornou-se então um dos fundadores da Juventude Comunista Revolucionária (JCR). Nesse âmbito, o envolvimento anti-colonialista continuará com o foco na guerra do Vietname. A JCR envolveu-se no Comité contra a Guerra no Vietname e nos Comités de Ação Liceal que marcaram greves e desfiles no ensino secundário que juntaram milhares de estudantes - foi a inspiração para o trabalho da portuguesa trotskista Liga Comunista Internacionalista (LCI), fundada em 1973.

Além disso, dez dias depois do assassinato do revolucionário Che Guevara a JCR organizou um comício de homenagem e lança depois campanhas pela libertação de Hugo Blanco, líder camponês do Peru condenado a 25 anos de prisão, e de Régis Debray, condenado a 30 anos de prisão na Bolívia.

Ligado para o resto da sua vida à experiência do breve e intenso maio de '68, em 1970 é candidato às eleições presidenciais enquanto cumpre o serviço militar.

A mobilização contra a guerra do Vietname não é um detalhe. Ela foi uma das centelhas que ateou esse maio francês que não foi um fenómeno isolado. Para protestar contra a prisão dos jovens que tinham partido as montras da financeira American Express em revolta contra a intervenção norte-americana, 142 estudantes ocuparam a torre da faculdade de Nanterre. Nasceu o Movimento 22 de março. 

Os militantes da JCR estavam entre aqueles que o fundaram e entre os que insistiam na ligação entre estudantes e operários. Entre aqueles que trabalharam para transformar  uma greve geral simbólica e de solidariedade numa greve espontânea com ocupação de empresas que abalou o país inteiro, baralhou sossegos, até de partidos de esquerda e de direções sindicais.

Depois do fim do movimento, a JCR foi dissolvida pelo governo em junho desse ano, junto com várias outras organizações envolvidas nos protestos. Krivine, figura destacada no que se passara, esteve preso durante meses. Logo a seguir, em 1969, participou na fundação da Liga Comunista (LC) que juntou os militantes daquela organização de juventude com os do Partido Comunista Internacionalista, então a seção francesa da Quarta Internacional.

Um candidato presidencial desempoeirado

Quem foi Alain Krivine? Ligado para o resto da sua vida à experiência dessa breve e intensa revolta popular, nesse mesmo ano a pergunta ganha outros contornos. O ativista foi escolhido pelo recém-criado partido para ser candidato às eleições presidenciais enquanto cumpria o serviço militar. E essa é a pergunta que ancora uma reportagem televisiva sobre ele. As televisões estavam espantadas com a irrupção desse candidato que não cumpria os códigos mediáticos. 

A 17 de maio, face às câmaras da ORTF, disparou: “pela primeira vez, um militante revolucionário tem a possibilidade de se exprimir em frente a vós”. Juntou-lhe ainda uma crítica às limitações da democracia burguesa, em nome de uma outra democracia que inclui autogestão e planificação económica pelos trabalhadores. A mensagem foi disruptiva, mas resultou em apenas 1,1% dos votos. Ou, como ele preferia dizer, só faltaram 99% para se tornar no presidente da França.

Em 1970 começou a trabalhar no Rouge, jornal da sua organização que se tinha estreado em setembro de 1968 e que teve uma circulação tão boa que chegou mesmo a ser diário entre 1976 e 1979. Krivine foi presença assídua desde o primeiro momento (nesse primeiro número podia ler-se aliás uma entrevista com ele), até ser substituído por outro título, já num novo quadro político, em 2009. Alain, que tinha sido por pouco tempo professor de História e secretário na editora Hachette, passou a ser “permanente”, ou seja, funcionário político para o resto da sua vida de trabalho.

A experiência da LC durou apenas três anos. O partido foi dissolvido em junho de 1973 na sequência de confrontos com o grupo de extrema-direita Ordem Nova, um dos precursores da Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen. LC e militantes da Esquerda Proletária e do Partido Comunista Marxista-Leninista de França organizaram uma contra-manifestação não autorizada contra um comício fascista que acabou em confrontos.

"A acusação, frequentemente ouvida, de ser um ‘sonhador’ é, para mim, um elogio. Apenas os conservadores não sonham. Nós, para mudar o mundo, temos necessidade do sonho para lutar, juntos."

O partido tentava responder a uma onda de violência de extrema-direita. Só a Ordem Nova tinha estado envolvida em 82 atos de violência pública nos dois anos que antecederam este embate com os militantes de extrema-esquerda, segundo um relatório do ministério do Interior francês. Nos dias anteriores, vários elementos desta organização, armados de matracas e barras de ferro, dedicaram-se a provocar rixas no Quartier Latin, em Paris.

A resposta da LC fez com que Krivine, que não estava presente porque participava num comício noutro ponto do país, acabasse preso pela segunda vez, obrigando o seu partido a viver  um breve período de clandestinidade sob o nome “Frente Comunista Revolucionária”. 

É neste contexto que Krivine concorreu pela segunda vez às presidenciais em 1974, tendo um resultado mais modesto que o anterior: 0,4% dos votos. No final desse ano foi criada a Liga Comunista Revolucionária, da qual fará parte da direção até à sua reforma, em 2006. Desempenhou o cargo de um dos seus três porta-vozes até à sua dissolução, em 2009.

Em 1981, o partido não conseguiu candidatar Krivine às presidenciais. A lei tinha mudado e os mesmos 500 “patrocínios” de eleitos locais necessários para legalizar a candidatura passaram a ter de ser recolhidos em 30 departamentos diferentes em vez dos anteriores dez. E, por isso, o nome de um candidato da LCR só voltou a surgir nos boletins de voto nas presidenciais de 2002 e, mais tarde, em 2007, com o de um desconhecido carteiro de 28 anos, Olivier Besancenot. 

Com um discurso desempoeirado e radical, um candidato desta força política surpreendeu, mais uma vez, os grandes meios de comunicação social. O seu sucesso relativo, 4,25% e 4,08% dos votos, o que correspondeu a cerca de milhão e meio de votos, selou uma transição de gerações. Krivine, que tinha sido porta-voz central da LCR, passou a ocupar um segundo plano. Antes do fim deste ciclo, entre 1999 e 2004, Krivine foi ainda deputado no Parlamento Europeu, eleito nas listas conjuntas da Luta Operária/Liga Comunista Internacionalista. Besancenot tinha sido o seu assessor.

Novas lutas, velhas causas

O sucesso destas campanhas presidenciais, e sobretudo a dinâmica que ultrapassou claramente as fronteiras da sua militância tradicional, fez a LCR querer dar o passo arriscado de se dissolver para lançar um projeto mais alargado, um que procurou ser unitário. O Novo Partido Anticapitalista nasceu em 2009. Krivine já não era permanente, mas permanece, participa, milita, luta na base. Porém, a história da LCR não pode ser confundida com o registo dos seus resultados eleitorais. 

Partido de milhares de militantes, ficou conhecido desde os anos 1970 por ter uma presença forte nos movimentos sociais. Além das participações em sindicatos como CGT, FSU e SUD e nos movimentos de solidariedade internacionalista, uma das marcas distintivas é a sua abertura para os novos movimentos sociais de que outros grupos marxistas desconfiaram ou secundarizaram. 

Os seus militantes investem fortemente no ativismo ecologista antes deste ser reconhecido quase unanimemente como causa urgente. Aderem sem reservas à vaga feminista e ao ativismo LGBT, confrontando os conservadorismos que não se desvaneceram por magia nos anos 1960. Engrossam as fileiras de organizações antifascistas e anti-racistas, como o Ras l’Front, que se opunham ao crescimento da extrema-direita num tempo em que, dizia parte significativa da esquerda bem-pensante da altura, isso seria perda de tempo ou até dar destaque a grupos marginais que não teriam futuro. Viu-se. 

Encontramos ainda o esforço militante da LCR tanto em movimentos emergentes e de massas, como o movimento alterglobalização na viragem do século, como nos esforços de organização de pessoas marginalizadas, como os trabalhadores sem papéis ou os trabalhadores desempregados. O mínimo que se pode dizer é que Krivine viveu intensamente todas estas lutas.

Outra das marcas distintivas do partido era a expressão pública das várias tendências. Havia  espaço na sua imprensa e um debate interno vivo, pautava-se pela ausência desse tão entranhado culto do unanimismo em que qualquer crítica mais substancial é desprezada, menorizada, assimilada a uma traição, ao divisionismo ou ao “fazer o jogo dos inimigos políticos”.

Com Krivine a ser a única figura de destaque desta força durante décadas, o partido, que também não afirmava ser dado a cultos da personalidade, vai arrastando-o no papel especial de porta-voz. A direção foi sempre coletiva e ele terá sido, nas palavras de Salvatore Cannavò, “um dirigente que não gostava de comandar”. Só que, evidentemente, a demora em conseguir fazer uma transição de gerações a esse nível não foi bom sinal.

Em 2011, quando lhe perguntaram o que deveria ficar inscrito na sua campa, respondeu com um sorriso e com a palavra de ordem da sua juventude: “é apenas um começo, continuemos o combate!”.

Por outro lado, o mesmo mal, diga-se, atingia várias outras esquerdas. A “geração do Maio de 68” sobressaiu na cena política francesa durante muito tempo, assim como por aqui também a “geração de Abril” perdurou. Pesaram ainda nesta equação as dificuldades próprias do refluxo das esquerdas revolucionárias depois do fim da experiência de ‘68, a experiência governamental da “esquerda unida” de François Mitterrand e a sua “viragem para o rigor” em 1983. Por outro lado, isto prendia-se obviamente com debilidades específicas da LCR.

Sublinhe-se, mais uma vez, que a influência de Alain Krivine não se esgota no quadro francês. Foi também um dos dirigentes mais conhecidos da Quarta Internacional e a construção desta foi, disse o seu irmão Hubert no momento da despedida, “a obra da sua vida”. Em nome dela viajou para os quatros cantos do mundo, com várias paragens em Portugal - esteve, por exemplo, no VI Congresso do Partido Socialista Revolucionário (PSR), em 1988.

Quem foi então Alain Krivine? A resposta mais curta e direta é: um revolucionário em permanência até ao fim. Quando outros se fizeram à vida ou tiraram do Maio de 68 a lição de que a revolução seria impossível, Krivine concluiu o contrário. Este tinha sido “a prova de que nos podemos revoltar até num país capitalista dito moderno e avançado”, e de maneira surpreendente. Ao contrário do que um certo retrato que se queria oficioso de uma revolta meramente estudantil e de “costumes” de uma juventude entediada, ilustrava a possibilidade de unir estudantes e trabalhadores na “maior greve geral” da história francesa, um ensaio geral que se devia repetir. E, além disso, essa “explosão fantástica de libertação” tinha-lhe mostrado como as pessoas se podem transformar nesses momentos.

A necessidade da revolução não a encontrava só nessa memória que lhe era querida, impunha-se-lhe igualmente frente aos desafios com que o mundo é hoje confrontado. No final do seu livro de memórias Ça te passera avec l’âge [Isso vai-te passar com a idade] escrevia: “ao fim de meio século de combates políticos, se olho alguns minutos para o retrovisor, mais do que as derrotas, as desilusões e as oportunidades falhadas, é a necessidade de perspetivas revolucionárias, ainda mais urgentes hoje do que ontem, que me salta aos olhos”. 

E continuou: “Alguns verão aí um ato de fé de um incansável ‘comunista revolucionário’ perdido para sempre nos seus sonhos e utopias. Sem dúvida. Não sou nem cínico, nem amargo, nem blasé. A acusação, frequentemente ouvida, de ser um ‘sonhador’ é, para mim, um elogio. Porque não reaprender a sonhar com uma sociedade mais justa, em que os critérios já não serão as cotações bolsistas mas a satisfação das necessidades que a população tenha democraticamente decidido? Apenas os conservadores não sonham. Nós, para mudar o mundo, temos necessidade do sonho para lutar, juntos. Todos juntos”.

Ainda bem que “isso” não lhe passou com a idade. Numa entrevista em 2011, quando lhe perguntaram o que deveria ficar inscrito na sua campa, respondeu com um sorriso e com a palavra de ordem da sua juventude: “é apenas um começo, continuemos o combate!”. “Isso” ficou afinal inscrito em nós. E o que escrevo é uma forma de lhe agradecer os seus começos, as suas continuações, os seus combates. É urgente continuar isso.