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Uma Inês de Castro negra

Se todos podemos ser o que quisermos, porque é que uma pessoa negra a ocupar um papel historicamente desempenhado por pessoas brancas gera tanta resistência? Porque é que uma pessoa negra a interpretar um papel historicamente ocupado por pessoas brancas equivale a “desvirtuar" o argumento?

Crónica 74
25 Agosto 2022

O Carnaval seguia a marcha de todos os anos quando a professora lançou o tema do desfile: “Personagens da História de Portugal”.

Ao chegar a casa, D., na altura no 2.º ciclo do ensino básico, partilhou com os pais a escolha, inspirada na sempre arrebatadora história de amor de Pedro e Inês. “Quero ser a Inês de Castro”, decidiu a criança, animada com o sonho daquela fantasia.

Na sua cabeça, numa “brincadeira” em que cada um veste uma pele que não a sua, não haveria qualquer problema em se mascarar de pessoa branca, sendo ela uma pessoa negra.

Mas na cabeça dos pais, pesada de microagressões, uma fantasia dessas veste-se de dor.

“Sabes bem o que iria acontecer se concordasse. No momento em que os colegas percebessem quem ela estava a representar, ia ser gozada. Imagina então se houvesse outra menina branca a escolher a mesma personagem”.

Não precisei de imaginar, porque ainda tenho bem presente a história de S: depois de memorizar todas as falas humanas que havia na peça que a sua escola estava a encenar, sonhou com o papel de protagonista, ajudou os colegas na preparação, mas, na hora de subir ao palco o único papel que lhe estava acessível era o de um touro. "É o mais parecido contigo, também é preto e grande", apontou-lhe alguém da mesma idade, sem que um único adulto travasse a agressão.

Com D. seria diferente? Sem ninguém parecido consigo em todos os capítulos da História de Portugal que já tinha aprendido, que personagem poderia escolher? A mãe explicou-lhe a dificuldade e, em conjunto, decidiram que, naquele ano, o Carnaval não passaria pelo desfile escolar.

Cheguei e esta história já sem a possibilidade de influenciar o seu desfecho imediato (participar, ou não participar?), mas não me esqueço dos múltiplos questionamentos que ela colocou – a mim e à mãe da criança.

Faria sentido, como propus, trazer para o desfile uma figura negra não portuguesa, mas indiscutivelmente parte da sua História?

Ou colocar no centro uma personagem como, por exemplo, a Rainha Nzinga, acabaria por penalizar ainda mais a criança, pela previsível dificuldade do seu reconhecimento pela professora e colegas?

 

Criar novos afectos

Se conheço quem, já em idade adulta, após enfrentar a oposição de um professor quase desistiu de apresentar um trabalho académico sobre Amílcar Cabral integrado num capítulo da História de Portugal, que impacto poderíamos esperar de uma batalha destas para uma criança?

Mais: seria pior D. sentir que ficaria de fora por não haver no “elenco” nenhum papel ajustado à sua pertença; ou ocupar um papel e tornar-se alvo de troça por causa dessa pertença?

O resultado aparenta ser o mesmo, mas há uma diferença fundamental: numa situação o foco está no tema que causa o desajuste, o que significa que mudar o tema surge como hipótese para transformar a realidade; na outra o foco está no fenótipo, que, ao ser depreciado e até rejeitado pelos outros, tende a ser fonte de conflitos de identidade, falta de amor-próprio e baixa auto-estima.

Partilhei o caso numa formação sobre diversidade – antes de mais para ilustrar como não temos de pretender excluir alguém para que o resultado das nossas acções seja a exclusão –, e, rapidamente soou o alarme da contestação.

“Mas onde está escrito que uma Inês de Castro negra seria rejeitada? Os miúdos mascaram-se de tudo e mais alguma coisa. Não há limites, e todos podem ser o que quiserem”.

Respondo à pessoa branca que me interpela que a realidade indica o oposto.

Afinal, se uma personagem fictícia como “A pequena sereia” da Disney gera fervorosa contestação por ser representada por uma actriz negra, o que esperar de uma figura histórica?

Se todos podemos ser o que quisermos, porque é que uma pessoa negra a ocupar um papel historicamente desempenhado por pessoas brancas gera tanta resistência? Porque é que uma pessoa negra a interpretar um papel historicamente ocupado por pessoas brancas equivale a “desvirtuar” o argumento?

Pouca importa que Halle Bailey tenha sido a melhor na corrida para interpretar a protagonista Ariel: a sua cor de pele fala mais alto. Por isso, desde que a escolha do director Rob Marshall foi revelada, em 2019, os protestos dispararam sob a hashtag #notmyariel.

Entre os argumentos contra a escolha, repete-se a ideia de que as crianças vão ficar destroçadas com o filme, porque se afeiçoaram à imagem de uma pequena sereia de pele branca. Significa que não se conseguirão afeiçoar à imagem de uma pequena sereia de pele negra?

Longe disso. Basta lermos e ouvirmos relatos de famílias negras sobre a felicidade das suas crianças diante da imagem de uma Ariel à sua semelhança.

Halle Bailey que o diga: foi graças ao incentivo dos avós que, mesmo diante de milhares de comentários de rejeição, não desistiu do papel. “Eles disseram-me: ‘Pensa no que isso está a fazer por nós, pela nossa comunidade, por todas as meninas negras que se vão rever em ti”.  Além de reflectir no impacto presente e futuro sobre outras vidas, a actriz ponderou o efeito o que esse papel teria produzido na sua infância.

“O que isso teria feito por mim, como isso teria mudado a minha confiança, a minha crença em mim mesma…tudo! Coisas que parecem tão pequenas para todos, são tão grandes para nós”. E importam.

Paula Cardoso escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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