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Uma cidade sem carros

A cidade do futuro tem espaços verdes, transportes para todos, espaços para passear e ar respirável. Não nos podemos queixar do trânsito, do barulho, da poluição, do estacionamento, dos acidentes, da falta de espaço para passeios sem chegar sempre à mesma conclusão. Há carros a mais. 

Crónica 74
16 Junho 2022

O carro é um símbolo de independência, liberdade e estatuto económico. Cada condutor está no seu castelo móvel, protegido do resto da sociedade, com rádio e podcasts em vez de conversas sortidas de estranhos, ar condicionado em vez de sovacos suados. Há sempre um assento garantido no carro, está lá sempre à nossa espera e só pára onde queremos.

Quer dizer, se não fosse pelos outros carros todos a fazer trânsito. É interessante como assim que nos sentamos atrás do volante nos sentimos separados do resto do mundo. Somos nós e os peões desatentos. Nós e os ciclistas atrevidos. Nós e os condutores de domingo que tiraram a carta na farinha Amparo. Nós, que só queremos ir de A a B e os outros condutores que estão ali a fazer trânsito. Lembra-me as pessoas que se queixam de estar muita gente a fazer compras na Black Friday, como se elas não fossem… pessoas a fazer compras na Black Friday.

Esse é o problema de muitas cidades modernas, como Lisboa. Há mesmo carros a mais. Não nos podemos queixar do trânsito, do barulho, da poluição, do estacionamento, dos acidentes, da falta de espaço para passeios sem chegar sempre à mesma conclusão. Há carros a mais. 

Quantas mais faixas podemos encaixar numa cidade como Lisboa? Vamos tirar mais ciclovias, mais passeio? Se calhar começar a escavar os rés-do-chão dos prédios residenciais para encaixar mais umas faixas? E para quê?

Quanto mais faixas, mais piora o trânsito. Construir mais e maiores estradas tira espaço à cidade e encoraja o uso do carro, o que provoca mais engarrafamentos.

É preciso imaginar uma cidade radicalmente diferente. 

Zonas sem carros existem em cidades como Barcelona, Milão, Madrid e em breve Paris. Estava para ser incorporada uma zona sem carros em Lisboa: a ZER na Baixa-Chiado. Segundo as projecções da câmara, isto significava mais 4,5 hectares de espaço pedonal e 5,7 quilómetros de ciclovia e uma redução de 60 mil toneladas de CO2 por ano. 

Uma cidade mais bonita, mais agradável de se passear não devia ser um objectivo para quem vive nas cidades? Não é bom para o turismo?

No Japão, desde os anos 50 que as políticas duplas de proibir estacionamento na rua à noite e exigir a compradores de carros que possam provar que têm onde estacionar o carro conseguiram limitar o espaço que o carro estacionado ocupa na cidade. Há mais espaço para esplanadas e para as lojas poderem montar bancas à sua frente.

Em Londres, uma taxa de congestão teve sucesso em reduzir o número de carros a entrar na cidade, mas com o aumento de taxis e TVDE a interferir com os tempos de espera dos autocarros, provando que dificilmente haverá uma varinha mágica que sozinha consiga reduzir o problema.

Igualmente importante, senão mais, é investir nas alternativas. Com mais ciclovias e espaço de passeio, mais pessoas vão preferir a mobilidade leve e andar na cidade, mas o transporte público tem de ter um papel essencial. São precisas mais carreiras, veículos e carruagens, mais estações, contratar mais condutores. Isto não se consegue da noite para o dia, mas tem de se começar já. Especialmente com a redução do preço dos passes não se pode depender das receitas das empresas de transportes para garantir este serviço público essencial. É preciso garantir que haja outras fontes.

Fizeram-se bons progressos a cortar certo tipos de viagens específicas. Por exemplo, a adoção do transporte escolar, generalizado e gratuito, não só elimina a necessidade das filas infindáveis de pais a trazer e levar as crianças à porta das escolas. Mais do que isso, tal como nos EUA, pode servir para corrigir assimetrias geográficas e de classe, permitindo des-segregar as escolas públicas.

Mas e as viagens diárias de trabalho? A redução da semana de trabalho para 4 dias e a promoção do teletrabalho podem ajudar a cortar milhares de viagens todos os dias, mas nenhuma discussão sobre cidades pode safar-se de falar de habitação.

O aumento do custo de habitação, sejam as rendas ou a compra, empurram as pessoas para fora das cidades, obrigando a viagens cada vez maiores. Quanto mais longe do centro da cidade, piores os transportes e mais necessário parece o carro privado. Sem uma política de habitação pública não vai ser possível impedir o êxodo das cidades.

A cidade do futuro tem espaços verdes, transportes para todos, espaços para passear e ar respirável. E para isso acontecer, precisamos de menos carros. Mesmo carros elétricos ou a hidrogénio não resolvem o problema do trânsito nem da poluição.

Uma cidade sem carros também é uma cidade sem a prestação do carro, sem o seguro do carro, sem o arranjo da oficina, sem os preços cada vez maiores de combustíveis. O que fariam com esse dinheiro?

Embora me tenha focado em Lisboa, a cidade que conheço melhor, sei que outras cidades beneficiariam também de menos carros e mais espaço para as pessoas. 

Enquanto não há autárquicas para ter mais uma oportunidade de trazer as cidades de volta ao século XXI, é essencial que as pessoas se organizem, participem a nível local e façam ouvir a sua voz. Queremos uma cidade para carros ou para pessoas?

O autor escreve consoante o Acordo Ortográfico de 1990, porque o pai, e cito, “não quer que ele escreva como o Salazar”.

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