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Quem trouxe? Quem trouxe? Foi uma alternativa pública ao Pingo Doce

A minha proposta é modesta: não é nacionalizar o Continente ou o Pingo Doce, mas criar uma alternativa pública ao hipermercado. Sem o motivo do lucro, sem ter de pagar salários milionários a administradores e a accionistas, é possível subir salários, pagar melhor aos fornecedores e baixar os preços ao consumidor. 

Crónica 74
5 Maio 2022

É interessante pensar em como numa altura em que as famílias entram em esforços financeiros cada vez maiores para manter a despensa cheia por causa da inflação, alguns dos portugueses mais ricos da nossa história são merceeiros glorificados. Seja Alexandre Soares dos Santos da Jerónimo Martins, que deixou aos seus herdeiros uns 3,6 mil milhões de euros ou Belmiro de Azevedo, com a sua fortuna de 1,7 mil milhões de euros.

Não é difícil perceber porquê. O capitalismo tem uma aversão intrínseca ao risco. Para quê perder tempo a desenvolver e criar produtos que podem ou não ter sucesso, quando se pode ser só o dono do mercado e extrair uma percentagem de cada venda? E depois de outros assumirem o risco, copiar os produtos e metê-los à venda mais baratos ao lado? Não é por acaso que outro merceeiro, Jeff Bezos, é dos homens mais ricos do mundo. Faz exactamente o mesmo. 

Outras coisas que têm em comum? Não pagar impostos e explorar os trabalhadores. Infelizmente, outra coisa que os capitalistas têm em comum é odiarem concorrência, sendo um sector conhecido (e frequentemente multado) por ter cartelização de preços. Isto está longe de ser um problema português. Na Nova Zelândia, um sector altamente cartelizado (e poderoso, por isso difícil de regular) discute-se se os supermercados não devem ser tratados como bens públicos, como estradas, a rede elétrica, da água, ou correios. 

Ironicamente, todos estes sectores sofrem em Portugal de diferentes níveis de privatização. Porque, obviamente, os capitalistas odeiam risco e podem extrair uma renda garantida de algo que TODOS temos de usar. E essa é a verdade sobre os supermercados. A distribuição é uma artéria essencial da nossa economia. Quem conseguir meter uma portagem numa rua que todos temos de atravessar todos os dias claro que vai ficar rico.

Aqui entramos na minha proposta modesta: não é nacionalizar o Continente ou o Pingo Doce, mas criar uma alternativa pública ao hipermercado. As vantagens parecem-me óbvias. Sem o motivo do lucro, sem ter de pagar salários milionários a administradores e a accionistas, é possível subir salários, pagar melhor aos fornecedores e baixar os preços ao consumidor. 

Ao controlar preços, consegue-se combater a fixação de preços do cartel dos supermercados pela concorrência  - algo que os capitalistas dizem que gostam. Ao controlar preços, conseguem garantir acesso a bens de primeira necessidade a quem mais precisa e combater os piores efeitos da inflação.

Ao pagar melhor aos trabalhadores obriga-se os outros empregadores da área a também pagarem melhor. Ou arriscam-se a não arranjar trabalhadores. Idem para melhores condições, como trabalhar 35 ou 30 horas por semana ou mais dias de férias.

Ao pagar melhor aos fornecedores ajuda a produção nacional e principalmente os pequenos agricultores, aqueles que são espremidos para fora do mercado com preços absurdamente baixos que apenas grandes produtores conseguem tornar rentáveis. 

A ideia de um preço de compra mínimo garantido para certos produtos agrícolas pelo sector público existe em vários países, talvez o mais famoso dos quais a Índia. Na Índia 250 milhões de pessoas (25 vezes a nossa população!) protestaram contra o fim dos preços de compra mínimos garantidos. 

Há outras vantagens em quebrar o oligopólio dos hipermercados com uma alternativa pública. Por exemplo, as receitas deste negócio garantido ficariam em Portugal, para serem reinvestidos em Portugal e não nos Países Baixos ou na ilha de Jersey.

E claro, o desperdício alimentar podia ser combatido não só comprando o excedente agrícola, como canalizando o que não seria vendido para uma alternativa pública ao Banco Alimentar. Porque não ter o novo Hiper público a fornecer comida às escolas, creches, lares, instituições de apoio aos mais carenciados, hospitais? Porque não fazer o que o mercado e a caridade não conseguiram e acabar com a fome em Portugal?

Não posso deixar de acabar sem referir os mercados cooperativos. Em vários países, consumidores, trabalhadores e produtores uniram-se para criar alternativas cooperativas ao hipermercado privado. Em Portugal, além de uma tradição cooperativa agrícola, temos mercados cooperativos como a Rizoma, a seguir um modelo já popular em França:os membros/donos alternam a trabalhar no mercado e em troca têm preços mais reduzidos. 

Talvez mais marcante tenha sido o exemplo em Singapura. Para combater a inflação, a confederação sindical NTUC criou a cadeia de supermercados FairPrice, agora a maior do país. Todos os anos os membros do sindicato (que são os donos) da cadeia recebem dividendos dos lucros multimilionários da empresa, além de terem descontos nos produtos.

Não pondo de parte a esperança que tenho no associativismo e cooperativas, o Estado português é o grande atalho para resolver as falhas do mercado e para o democratizar. Devia haver uma alternativa pública, de todos os portugueses para todos os portugueses, ao Continente e Pingo Doce.

O mais difícil seria arranjar um nome, mas fica aqui a minha proposta de nome e de mascotes, a Boga e o Trocos.

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O autor escreve consoante o Acordo Ortográfico de 1990, porque o pai, e cito, “não quer que ele escreva como o Salazar”.

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