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Os debates e o tempo, esse conceito ultrapassado

Estamos todas e todos em nossas casas, de olhos postos num chorrilho de interrupções, de incapacidade dos candidatos de elaborarem uma resposta com princípio e fim, da total inexistência de fio condutor de um momento que se pretendia, convém lembrar, que servisse dois interesses: o dos eleitores e o  dos candidatos.

Crónica 74
14 Janeiro 2022

É exactamente isso. Venho escrever-vos sobre o que tem sido esta sucessão de debates entre os candidatos às próximas legislativas. Contudo, por defeito ou feitio, não consigo começar sem fazer associações de acontecimentos que convivem, que são contemporâneos uns dos outros e que, na minha cabeça, não o são por acaso.

Penso, por exemplo, na morte de uma das nossas maiores artistas, Lourdes Castro, há alguns dias. É no mínimo inusitado - e injusto para a artista - que eu a misture nesta crónica com o que se seguirá, bem sei, mas prometo que lhe dedicarei o parágrafo seguinte, separando-a tacitamente do resto. Um parágrafo, a separação formal possível: uma separação clara do trigo e do joio.

Lourdes Castro, nascida em 1930 no Funchal, desapareceu no dia 8 deste mês, no lugar que a viu nascer, depois de uma vida dedicada a olhar os objectos e as coisas, das ditas comezinhas às fundamentais, com tempo. O tempo suficiente para poder dar-se conta que fixar qualquer coisa, pode ser fixar tão somente a sua sombra, a sua forma, o seu contorno. Assim, não deixando o objecto fixado de “ser o que é”, este passa a ser também tudo o que nos é deixado, a nós, adivinhar. "A sombra é isso: tem tudo o que tem o objeto, mas o mínimo possível para ser reconhecido”, dizia a artista. Esta capacidade de reconfiguração do que nos rodeia é já de si rara, mas associada a tempo que a faça florir, resulta numa obra ímpar e de enorme profundidade.

É aqui que quero começar o parágrafo seguinte - feita a justa homenagem à artista - e debruçar-me sobre o formato dos debates a que temos assistido, nos diferentes canais televisivos. Sei que já alguma tinta correu sobre o assunto e que os 25 minutos de confronto têm sido alvo de crítica, mas também a mim me é urgente ocupar este espaço com uma reflexão que sublinhe e repise a palavra “profundidade”.

É necessário que se diga com clareza: estes debates não pretendem elucidar ninguém sobre o programa de nenhum candidato às legislativas que se aproximam. Estamos todas e todos em nossas casas, de olhos postos num chorrilho de interrupções, de incapacidade dos candidatos de elaborarem uma resposta com princípio e fim, da total inexistência de fio condutor de um momento que se pretendia, convém lembrar, que servisse dois interesses: o dos eleitores e o  dos candidatos. No que diz respeito aos eleitores, há uma fatia destes que beneficiaria muito em assistir a estes debates: os indecisos. No que diz respeito aos candidatos, há uma fatia destes que beneficiaria muito em ter protagonismo e um bom desempenho: os candidatos com menor projecção política.

Longe estamos do célebre debate entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, o debate do mítico do “olhe que não” deste último, que termina com um dos moderadores a lamentar as três horas e meia de discussão porque, passo a citar, “estamos longe, embora com três horas e meia de programa, de chegar ao fim de todos os pontos”. Contudo, vale a pena realçar que, apesar desses formatos já pertencerem aos anais da História, os debates que se fizeram por altura das eleições presidenciais o ano passado, bem como os de 2016, tinham em média mais 10 minutos do que estes. O tempo foi, portanto, encurtado.

Ora, se os debates deveriam servir os eleitores e dar espaço aos candidatos, quem sai afinal beneficiado deste formato? Aqueles que ganham em ter pouco tempo, seja porque não têm um discurso coeso que vá para lá de cinco ou seis “chavões” que repetem até à náusea, seja porque não lhes interessaria muito ver o seu programa escrutinado. Note-se que há um candidato cujo programa tem nove páginas.

Já levamos muito tempo de “modernidade líquida”, como apelidou o filósofo Zygmunt Bauman as últimas largas décadas, pós anos 60, pela maleabilidade e efemeridade que passaram a caracterizar as relações interpessoais, as económicas e as lógicas de produção.

(Eu sou filha dessa “liquidez” e prefiro-a, que fique claro, a qualquer “modernidade sólida” antes desta, porque esses eram os anos, como se sabe, de ditadura no nosso país).

Não é assim estranho que a comunicação social também se tenha reconfigurado, a favor do imediatismo e ande, há já muitos anos, a fazer os malabarismos e acrobacias possíveis para gerir e integrar o aparecimento das redes sociais. E vimos noutros contextos - sendo os EUA e o Brasil os exemplos que melhor conhecemos - que políticos ganharam notoriedade e protagonismo com esta “nova forma de fazer política” e com esta “nova forma de a comunicar”.

O que se poderia esperar então, se esta transformação é uma realidade?

Maior responsabilidade, apesar de tudo. Maior responsabilidade da comunicação social. É com indignação que vejo, depois dos debates do ano passado, que se dê menos tempo de antena aos candidatos, numas eleições inesperadas, tão delicadas pelo momento político que se vive em Portugal e pela crise pandémica em que estamos.

E quando falo da delicadeza do momento político que vivemos, falo do possível enfraquecimento de partidos, à esquerda e à direita, essenciais à nossa democracia, enquanto se assiste ao perigoso crescimento da extrema-direita.

O formato destes debates, em prol da superficialidade, da grosseria e da troca de galhardetes, só beneficia quem usa essas armas: o conteúdo fica para depois, quem fizer mais barulho sai vencedor.

A alimentação desta grande falácia é, mais uma vez, responsabilidade da comunicação social.

O aprofundar anda de mãos dadas com o tempo e é só com um olhar demorado que conseguimos aceder às sombras, ao que está para lá da crosta com que, cada uma e cada um de nós, se mune para fazer face ao mundo.

Nesta altura, teríamos precisado de tempo para que os eleitores pudessem ver para lá da performance ensaiada, para que os candidatos revelassem, sem margem para dúvidas, as suas sombras.

A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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