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O respeito pela característica intrínseca de se ser humano

O funeral de Shireen Abu Akleh, jornalista assassinada, foi invadido e violentado pelas Forças Israelitas. Não se calou só a voz da Palestina, mas fez-se questão de lhe retirar qualquer direito, até o de ser chorada com dignidade. Fez-se questão de a desumanizar, mesmo após a morte.

Crónica 74
19 Maio 2022

Somavam-se, até há uns dias, os assuntos sobre os quais queria escrever-vos: a nossa cabeça caminha a passos largos para reproduzir, perfeitamente, o feed de uma rede social. Os pensamentos assaltam-nos como pop-ups, que se fecham para logo surgirem outros, sempre que os gadgets reclamam a nossa atenção. Sem o descanso devido do telemóvel, acumulavam-se na minha cabeça as notícias sobre a licença menstrual remunerada, aprovada em Espanha, os novos momentos insólitos do caso Heard-Depp que tanta mácula tem trazido à luta contra a violência doméstica, mais as declarações do Ministro da Cultura que não deixam nenhum profissional da cultura esperançoso.

Todas estas notícias me iam ocupando e a nenhum destes assuntos quero retirar importância ao nomeá-los assim; antes ressalvar que, pelas piores ou melhores razões, merecem a nossa atenção. Contudo, o texto de hoje responde não a um pop-up mental, no meio de tantos outros, mas a uma imagem que veio, à semelhança de um bug, abrir e/ou fechar todas as outras janelas, reproduzindo-se sem parança. Uma imagem que invadiu tudo ou, para ser mais justa, que pôs tudo em pausa.

Num dos meus intervalos entre ensaios, enquanto os meus olhos varriam o feed de uma rede social: o vídeo de uma multidão que carregava um caixão nas mãos. Um funeral, pensei. "O funeral da jornalista palestiniana que foi assassinada”, percebi ao ler a breve legenda da Al-Jazeera. “Shireen Abu Akleh”.

O caixão era levado por uma multidão, como referi. Uns carregavam aquela cuja morte estava a ser chorada, outros levavam flores nos braços, outros juntavam-se à cerimónia entoando o que, do que pude ouvir, me pareciam ser cânticos, orações. Tudo é bastante reconhecível, em meia dúzia de segundos. Estamos a falar do último momento de proximidade física - porque felizmente contra a proximidade que não se vê, ninguém pode atentar - que os familiares, amigos, colegas e seguidores desta mulher teriam com Shireen Abu Akleh.

A jornalista palestiniana, que também tinha cidadania americana, trabalhava para a Al-Jazeera e foi, nas últimas duas décadas, uma das maiores vozes do jornalismo do mundo árabe, tendo estado sempre na linha da frente da cobertura do conflito israelo-palestiniano.

Shiren foi assassinada com um tiro na cabeça, na cidade de Jenin, durante um ataque israelita, com um colete à prova de bala onde se podia ler “PRESS”. Estava, portanto, a trabalhar.

Voltando ao seu funeral, o que se segue nas imagens que vos descrevo, é o que dificilmente esquecemos. Em pleno cortejo fúnebre, as Forças Armadas Israelitas investiram contra a multidão com tal violência, que é ver uns a fugir, outros a caírem e a serem engolidos pelo pânico dos restantes e aqueles que carregavam o caixão a esforçarem-se por não o largar, encurralados contra um edifício. Esforços sem sucesso, o caixão acaba por cair ao chão.

Esta descrição serve só um propósito: o de tornar clara a violência a que ali assistimos, tentando contrariar a ambiguidade e falta de clareza da cobertura feita desta barbárie, na maioria dos meios de comunicação.

“Shireen Abu Akleh dies, aged of 51”, lê-se aquando da sua morte, no New York Times. Shireen Abu Akleh não morreu, foi assassinada.

Inevitavelmente, revi algumas vezes estas imagens e lembrei-me de um texto de Giorgio Agamben em que este diz “que a nossa humanidade se mede pelo respeito que se tem para com os mortos”.

E é essa linha ultrapassada, para toda a gente ver, disfarçada de “resposta a provocações” - foi isso que alegaram as Forças Israelitas para justificarem esta aberração - que é imperativo não normalizar.

Todos os dias nos chegam notícias da desumanidade que uma guerra permite, encobre, potencia. Nesse contexto, sabemos, não há limites para a violência, para a monstruosidade. E sabemos ou devíamos saber que nem todas as guerras têm merecido a mesma atenção por parte dos media, nem a mesma mobilização por parte do cidadão comum que, à distância, se sente impelido a ajudar - e bem - os mais fragilizados e atingidos pelos conflitos.

Recuso-me a ir mais além nas comparações, porque tudo o que se faça em prol de quem está a viver uma guerra no seu país é pouco.

O que aqui está em causa é uma guerra estar em curso mas ninguém a chamar pelo seu nome.

É o silêncio internacional perante o assassinato desta jornalista, em pleno exercício do seu trabalho e a aceitação das razões estapafúrdias que Israel, um estado democrático, deu para justificar as suas forças armadas terem invadido um funeral e recorrido à força, ao ponto da cerimónia não poder prosseguir.

Que mensagem quer, afinal, Israel passar?

Assim se impõe limites à liberdade de imprensa, se censura, se controla pelo medo aquelas e aqueles que têm, como responsabilidade, garantir que no “feed mental” de cada uma e cada um de nós não se normaliza tudo.

Calaram, como dizia Daniel Oliveira esta semana, “a voz da Palestina para o mundo”.

E eu penso que não se calou só a voz da Palestina, mas fez-se questão de lhe retirar qualquer direito, até o de ser chorada com dignidade. Fez-se questão de a desumanizar, mesmo após a morte.

Isto é barbárie, como tudo o que nos choca e aterroriza quando a guerra nos entra pelos olhos adentro na televisão.

Não normalizemos estas imagens. Não as normalizemos por Israel ser um estado democrático.

A democracia não é um conceito abstrato, pode-se sempre aferir se os seus princípios são, ou não, respeitados.

Falta é os orgãos de comunicação social internacionais terem a coragem de chamar as coisas pelos nomes.

Não por acaso, termino esta crónica, citando Hannah Arendt, filósofa judia, nascida na Alemanha, no seu livro As origens do Totalitarismo:

“O conceito de direito humano perdeu-se no exacto momento em que aqueles que diziam acreditar nele, se viram confrontados com pessoas que tinham sido espoliadas de todas as suas qualidades específicas - terra, casa - excepto a de serem, ainda, humanas. O mundo não encontrou nada de “sagrado” na nudez abstrata de se ser, simplesmente, humano”.

O respeito pela característica intrínseca de se ser humano, independentemente de tudo o resto: eis um dos princípios a que a democracia tem que responder.

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