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O aborto também tem a ver com os direitos dos homens

Sobre a nova medida relacionada com a IVG, a ser implementada, permite ao governo culpar os médicos, e os médicos as grávidas. Se funcionar, é uma grande vitória para o patriarcado e uma derrota para o tal progresso que quer libertar as mulheres sem apelo nem agravo.

Crónica 74
12 Maio 2022

Ainda é só uma proposta, mas não deixa de ser um sinal algo tranquilizador sobre o progresso, felizmente, nunca estar assegurado e poder ser revertido. Digo felizmente, e não me levem a mal ou tentem cancelar como tanto gostam de fazer a homens com opiniões fortes e conservadoras, porque realmente creio que se tem ido longe de mais no que diz respeito a consagrar “direitos” às mulheres, enquanto se apagam os dos homens.

Não sou, obviamente, um daqueles brutamontes que acha que as mulheres não deviam votar e o seu lugar é na cozinha. Acalme-se quem achava que vivo no século passado. Agora, não pode deixar de me fazer confusão a forma como as mulheres deixaram de consultar os homens para determinadas coisas da sua vida, e como tem havido um caminho social e legal – a que gostam de chamar progresso – que tem favorecido este desvirtuar da sociedade ideal.

Concedo que possam casar com quem quiserem sem prévia aprovação do pai (desde que casem mesmo com alguém, claro, e devotem a sua vida ao matrimónio), e viajar para fora do país sem autorização do marido (desde que só para Espanha e França). Acho bem, naturalmente, que possam ter uma noite por semana para sair com as amigas, que possam fazer uma (duas, máximo) tatuagem discreta e que – claro, não sou um cavernoso neandertal – tenham uma profissão desde que conjugável com os seus afazeres domésticos e cuidado dos infantes. Portanto, acho que por alto – e desculpem se me alonguei na introdução, mas creio que precisavam de me conhecer melhor – percebem que sou um homem moderno que consagra bastantes direitos às mulheres.

Mas chegámos a um ponto em que me parece inaceitável todo este alarido da igualdade de género e dos direitos das mulheres, nomeadamente desde a descriminalização do aborto.

Por diversas razões é profundamente errado que as mulheres o possam fazer por dá cá aquela palha, e passo a explicar porquê. Primeiro, vários estudos que li na internet mostram que os abortos em Portugal aumentaram exponencialmente desde esse marco, porque as mulheres agora usam-no como contraceptivo e preferem abortar a dizer aos homens com quem performam o coito para usar preservativo. Segundo, porque cada aborto realizado é mais um nascimento de um homem que pode estar a ser impedido, e já percebemos a falta que estão a fazer ao mundo. Por último, mas não menos o importante, porque se convencionou que é uma decisão que diz respeito apenas à mulher – pelo absurdo facto de se tratar apenas do corpo dela – e o homem que também esteve envolvido no processo afinal não tem voto na matéria.

Onde é que ficam os direitos dos homens, afinal? Cumulativamente mais esmagados por este feminismo tóxico que leva a sociedade cada vez mais a acreditar numa suposta igualdade de género que, a bem da verdade, não é referida uma única vez por Deus na sua idealização de sociedade. E eu nem era para trazer para aqui a religião, mas realmente é toda uma situação de tirar a fé a um Cristão, de tão arreliante que é. Creio que a sociedade se está a esquecer que os homens têm o direito de se sentir incomodados com os direitos das mulheres, porque é disto que se trata.

Bem, tudo isto para voltar ao ponto inicial que me deixou com alguma esperança: a proposta da Administração Central do Sistema de Saúde para que os médicos sejam penalizados caso tenham pacientes que queiram abortar ou que contraiam DST. Excelente proposta. Em relação às DST, acho óptimo porque também é desde logo uma forma de tentar controlar a sexualidade das mulheres, mas deixo o assunto para outra crónica.

Em relação ao aborto é uma grande ideia porque vai dar um incentivo financeiro aos médicos para pressionarem as suas pacientes grávidas a não abortar: “pense bem, isto não é só sobre si, ao abortar está a fazer-me perder o bónus por objectivos ao final do mês”. Ou seja, a ser implementada, é uma medida que permite ao governo culpar os médicos, e os médicos as grávidas. Se funcionar, é uma grande vitória para o patriarcado e uma derrota para o tal progresso que quer libertar as mulheres sem apelo nem agravo. Vamos dar graças a Deus e esperar que possamos regressar a tempos melhores, com a esperança de um dia chegarmos aonde estão os EUA.

**este artigo foi escrito ao abrigo do acordo ideológico seguido por vários cronistas do Observador e do SOL, e provavelmente por quem elaborou esta proposta na ACSS.

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