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Music makes the people come together

Mesmo nos momentos mais impiedosos, sabemos que a vida é muito mais que a notícia de abertura dos telejornais. Somos mais que as guerras, os atentados, as catástrofes, os crimes de ódio, a violência banalizada. Somos mais que os conflitos que não criámos, as ofensas entre deputados no parlamento, que a hipocrisia apocalíptica de cronistas incendiários. E a música, essa, não pára de tocar a sua mensagem de união por onde quer que passe. 

Crónica 74
18 Agosto 2022

Esta é uma ode à música, à dança e a tudo que nos une. É um texto que senti a necessidade de escrever enquanto estava na edição deste ano do festival Boom, ao lado de 40 mil pessoas de muitas, tantas nacionalidades que, como eu, dançaram de dia e de noite, como um todo, como um caos organizado que conhece intuitivamente as leis do seu equilíbrio. É uma ode à prova viva de que o mundo não é só divisão, crispação, violência, ódio.

Dizia José Mário Branco que “a cantiga é uma arma”, e é, de facto. É uma arma de união maciça capaz de aniquilar as falsas fronteiras criadas por muitos e alimentadas por outros tantos. Independentemente da origem ou do estilo, a música tem o poder de, recorrendo à linguagem de Pessoa em O Banqueiro Anarquista, desarmar as “convenções e ficções sociais.” Passo-lhe a palavra: “O mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepõem às realidades naturais. (…) A gente nasce homem ou mulher (…); não nasce, em boa justiça natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou português ou inglês”. Mas somos levados a pensar, todos os dias, por governantes, por políticos, por grandes interesses económicos, por jornalistas, por cronistas, que nós somos só isto, uma amálgama de gente destinada a ser o que se espera dela e condenada a um degredo sem fim.

Não é verdade e nós sabemos disso, no nosso íntimo. Mesmo nos momentos mais impiedosos, sabemos que a vida é mais, muito mais, que a notícia de abertura dos telejornais. Somos mais que as guerras, os atentados, as catástrofes, os crimes de ódio, a violência banalizada. Somos mais que os conflitos que não criámos, somos mais que as ofensas proferidas entre deputados no Parlamento, somos mais que a hipocrisia apocalíptica de cronistas incendiários, somos mais que um prédio cheio de vizinhos que se odeiam.

E a música, essa, não pára de tocar a sua mensagem de união por onde quer que passe. Muitas vezes, tal é o ruído, mal a conseguimos ouvir mas a prova do seu poder está em todo o lado e nós temos a capacidade e obrigação de aumentar o volume para escutar, com muita atenção, tudo o que tem para nos dizer.

Li recentemente no The Economist que na edição deste ano do Van Cliburn International Piano Competition, nos Estados Unidos, um hiper talentoso pianista sul-coreano surpreendeu tudo e todos com uma impecável interpretação do complexo concerto para piano n. 3 de Rachmaninoff. Ganhou ouro. Mas além deste prodígio musical, o que mais me chamou a atenção foram outras informações do artigo. Foi a mensagem de solidariedade da segunda classificada, a pianista russa Anna Geniushene, para com o povo invadido da Ucrânia. Foi o facto de a medalha de bronze ter ido para um pianista ucraniano, Dmytro Choni, que mesmo com um país em escombros, conseguiu destacar-se e ser um dos melhores do mundo.

E foi também a história do próprio festival, ou de quem lhe deu o nome, o pianista americano Van Cliburn, que em plena Guerra Fria foi a Moscovo tocar e vencer um concurso de piano - a elevação moral da música permitiu que um pianista do Louisiana fosse à capital russa fazer com que o som do seu piano falasse mais alto que as provocações nucleares. E hoje, em 2022, o festival que tem o nome deste mesmo pianista, contrariou uma tendência geral, e muito americana, de cancelamento e convidou sem pudor jovens músicos da Bielorrússia e Rússia para entrar na competição. São os acordes da diplomacia a abafar o barulho que ódio gera.

Noutro contexto, fiquei a saber pela The New Yorker que uma música do Paquistão andava a cometer a ousadia de navegar livremente tanto pelos ouvidos dos indianos como dos paquistaneses, esses povos arqui-inimigos em luta eterna por causa da região de Kashmir. O tema chama-se “Pasoori” e é interpretado por Ali Sethi, um paquistanês que vive entre Nova Iorque e Lahore, capital da província paquistanesa do Punjab, e Shae Gill, uma estudante de economia pertencente à minoria católica do Paquistão (apenas 1,59%), cuja voz foi descoberta graças aos vídeos que publica no seu Instagram. A música fala de um amor impossível, essa metáfora intemporal, e é ilustrada por um vídeo que é um festim de tradição, actualidade e inclusão. Pois justamente na semana em que dois adolescentes indianos tinham sido presos no estado indiano do Uttar Pradesh, por estarem a ouvir música do Paquistão, o êxito paquistanês “Pasoori” chegou a número um na India. São os acordes da ironia a desconstruir as “ficções sociais”.

Este “terrível” poder conciliador da música foi o mote dos atentados de Paris em 2015, perpetuados pelo ISIS, que quis deixar bem claro no texto de reinvidicação do atentado o que estava exactamente a atacar: “the targets included the Bataclan theatre for exhibitions, where hundreds of pagans gathered for a concert of prostitution and vice.” Assim, sem meias palavras. Foi um ataque à música e a tudo o que ela representa. Mais à frente, no mesmo texto, pode-se ler a seguinte ameaça: “the scent of death will not leave their nostrils”. O cheiro da morte não abandonará as nossas narinas…

Fez-me lembrar a frase proferida por Robert Duvall no filme Apocalipse Now de Francis Ford Copolla: “I love the smell of napalm in the morning. (…) Smells like… victory!” Não permitamos que cantem vitória. Subamos ao máximo o volume da nossa música e deixemo-nos levar em transe pelo som da liberdade. Assim no Boom como na vida.

P.S.: a leitura desta crónica soa melhor acompanhada por Deep Jungle Walk de Astrix, por Expansion de James Monro, por Concerto para piano n. 3 de Rachmaninoff por Lim Yun-chan e por “Pasoori” de Ali Sethi e Shae Gill. 

Crónica alterada às 12h39 de 18 de agosto de 2022.

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