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E viveram felizes para sempre

A pobreza, a vivência em comunidades problemáticas, a fome, a solidão e a escassez de trabalho digno não param de aumentar e a seguir esta tendência consistentemente crescente, o mundo pode ver-se em mãos com um sentimento crónico e generalizado de infelicidade.

Crónica 74
13 Julho 2022

Todos procuramos a felicidade. Todos queremos ser felizes. E fazendo um raciocínio lógico inspirado pelo poema de John Donne, segundo o qual “no man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main”, podemos afirmar com alguma segurança que a felicidade de cada um só será possível se for construída a par com a felicidade do outro, entenda-se, quem nos rodeia quer num círculo mais estrito quer num universo mais abrangente.

Lembrei-me de falar da felicidade, no seu sentido mais lato, por causa do carácter excepcional desta crónica específica, uma vez que ela integra a edição especial de primeiro aniversário desta plataforma inspiradamente baptizada de Setenta e Quatro. O 25 de Abril de 1974 marcou um ponto de viragem para todos os portugueses e o que sempre me impactou mais nos registos em vídeo e fotografia da revolução dos cravos foi a cara de genuína felicidade do povo, exultante na sua celebração da liberdade.

Volvidos 48 anos, como estamos de felicidade? Não só nós, mas o mundo. Como estamos a conseguir equilibrar feitos e conquistas da civilização com os sucessivos fracassos e derrotas desta mesma civilização? Aparentemente, mal. Segundo Jon Clifton, presidente da Gallup, a toda-poderosa empresa de recolha e análise de dados (responsável, entre muitas outras coisas, pela elaboração do Relatório Mundial da Felicidade, encarregado pelas Nações Unidas), a infelicidade está a ganhar terreno de forma constante pelo menos desde 2006, ano em que se começou a fazer um retrato mundial do nosso estado de espírito.

Numa crónica de opinião que Clifton escreveu para a The Economist (17 de Junho de 2022) com o pouco auspicioso título de “Unhappiness is soaring around the world”, é traçado um quadro no mínimo negro do ponto em que estamos e do caminho que estamos a seguir. Segundo esse estudo, feito anualmente pela Gallup em 150 países a 160.000 pessoas, as principais razões para a infelicidade mundial estão a ceifar sem piedade a nossa capacidade de sorrir. A pobreza, a vivência em comunidades problemáticas, a fome, a solidão e a escassez de trabalho digno não param de aumentar e a seguir esta tendência consistentemente crescente, o mundo pode ver-se em mãos com um sentimento crónico e generalizado de infelicidade.

Como se pode então inverter ou pelo menos desacelerar esta tendência? Desde logo, como diz Clifton, não tentando tudo justificar por acontecimentos recentes ou fenómenos globais. Ou seja, não deitar as culpas todas em cima da pandemia, da guerra ou das redes sociais, como muitas vezes é feito, mas sim repensar não só as políticas mas acima de tudo, a forma como a política é feita.

Porque os governantes têm de saber tomar o pulso das populações e agir de acordo com essa pulsação. É esse o seu propósito, e isso mesmo tem sido lembrado e relembrado ao longo da história pelos próprios governantes. Já em 1809 o presidente Thomas Jefferson disse: “o cuidado da vida humana e da felicidade, e não da sua destruição, é o primeiro e único objetivo legítimo de um bom governo.” Dando um salto até 2016, ouvimos a chanceler Angela Merkel afirmar que “o que é importante para as pessoas é o que tem de guiar as nossas políticas”. A teoria está lá, mas a prática…

Mas então, o que é que é importante para as pessoas? O que é que nós consideramos que faz a nossa felicidade? Recorrendo ao Relatório Mundial da Felicidade da ONU, ficamos a conhecer as variantes que a condicionam. A saber: PIB per capita, assistência social, expectativa de vida saudável, liberdade para fazer escolhas, generosidade (uma agradável surpresa) e a percepção de corrupção (por esta última já percebemos que Portugal não tem muitas razões para sorrir). Segundo este relatório, a Finlândia é o melhor aluno da sala e nós estamos na 56ª posição, um “nim”, numa tabela com 156 países.

Mas é só isto? Não me parece. Fui então à procura dos indicadores utilizados naquele que é o país mais famoso do mundo pela sua postura perante a felicidade: o Butão. Tudo começou em 1972, quando o então rei Jigme Wangchuck teve um momento feliz e afirmou “a felicidade interna bruta é mais importante que o produto interno bruto”. Revolucionário. Começava aqui um longo caminho que culminou com a inclusão da Felicidade Interna Bruta na constituição em 2008, fazendo do respeito pela felicidade uma obrigação legal. E olhando para os critérios de avaliação percebemos que aí a coisa é mesmo levada a sério, com a enumeração dos nove domínios da felicidade: bem-estar psicológico, saúde, usufruto do tempo, educação, diversidade cultural e resiliência, boa governação, vitalidade da comunidade, diversidade ecológica e padrões de vida. Assim, sim.

Aqui, nestes indicadores, encontramos tudo o que nos preocupa e pode fazer felizes. Aqui está a cultura, está a educação, está o ambiente, está a qualidade de vida, está tudo o que nós queremos e precisamos para sorrir. E são todos estes fatores que os governantes têm de democraticamente cuidar. Porque, como diz George Ward no livro The Origins of Happiness, “numa democracia, os políticos não devem fazer julgamentos sobre o que é bom para as pessoas. Devem sim criar as condições necessárias para que as pessoas estejam satisfeitas com a sua vida.” Voltamos ao nobre propósito dos governantes: saber ouvir e saber agir. E assim, só assim, viveremos felizes para sempre.

P.S.: a leitura desta crónica soa melhor acompanhada por:

“The Pursuit of Happiness” de Kid Cudi“The Happiness Lab” um podcast da Dra. Laurie Santos (Yale University) sobre a ciência da felicidade

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