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E o menino é filho de quem?

O dinheiro, essa nova maçã tentadora, é a grande causa das coisas e o seu destino e origem deviam ser uma preocupação não só de quem se dedica profissionalmente à causa nobre da verdade, mas de todos. 

Crónica 74
14 Abril 2022

Com esta pergunta tentavam as tias velhas etiquetar com uma denominação de origem controlada todo e qualquer novo elemento que aparecesse no horizonte social e uma vez sabida a sua proveniência, a criatura era bem ou mal tratada. Classismos obsoletos à parte, esta é uma pergunta que deveríamos fazer mais vezes, não sobre os antepassados de cada um, mas sobre os antepassados daquilo que se nos apresenta à frente. Porque como nada aparece do nada e a forma como aparece tem uma razão de ser, devemos fazer o esforço por saber a origem, fonte e proveniência do que nos move, condiciona ou intriga.

E onde está, como diria Miguel Esteves Cardoso, a causa das coisas? Em muitos e variados sítios, segundo quem procura ou onde se procura.

Nos policiais e filmes noir, bastava procurar a mulher (ou “chercher la femme”, no original da expressão criada por Alexandre Dumas). A causa do crime ou da perdição de alguém estaria sempre ligada a uma mulher fatal, e ao encontrar-se essa mulher fatal, encontrar-se-ia a origem do problema, o criminoso e o móbil do crime. Era no fundo a perpetuação do mito de Eva, que já não estaria nua no colorido jardim do Éden a impingir maçãs ao pobre Adão, mas a fumar em contra luz num ambiente a preto-e-branco e a soltar chavões como “he won’t awnswer, I killed him this morning” (Betty Davis em Another Man’s Poison). Caso resolvido.

Da causa sexista passemos à causa materialista. “Follow the money” é uma expressão que se popularizou com o filme All the President’s Men (Alan J. Pakula, 1976) que argumenta que para se encontrar o ou os culpados num caso de corrupção política, o caminho era seguir o rasto do dinheiro, de conta em conta, do corrompido ao corruptor. E de facto tanto assim é, que o princípio “follow the money” está hoje em dia presente em todas as peças de jornalismo de investigação, em todos os debates políticos, em todas as comissões de inquérito. O dinheiro, essa nova maçã tentadora, é a grande causa das coisas e o seu destino e origem deviam ser uma preocupação não só de quem se dedica profissionalmente à causa nobre da verdade, mas de todos.

Porque enquanto muitos dos mecanismo financeiros que corrompem o mundo são indetectáveis a olho nu, há muitas situações no nosso dia-a-dia capazes de fazer levantar o sobrolho até do mais incauto e chega às vezes a ser uma simples questão de senso comum.

Por exemplo, quando uma t-shirt tem o preço de 2€ deveríamos questionarmo-nos de como é que isso é possível. Deveríamos perguntar “e tu, singela t-shirt, és filha de quem?” Ela, se falasse, responderia: “sou filha de uma multinacional do vestuário, com práticas análogas à escravatura e permissiva relativamente ao trabalho infantil, a operar em fábricas altamente poluentes, com margens de lucro ridículas para os fornecedores mas gigantes para si própria e por isso é que eu só te custo 2€. Queres comprar-me na mesma?”

Por exemplo, quando um país como Angola chegava a pagar em Luanda mais do triplo do que se recebia em Portugal pelos mesmos serviços, tratando-se de um dos países com maior taxa de pobreza, maior índice de mortalidade infantil e maiores taxas de corrupção, não seria legítimo perguntar: “e tu, chorudo ordenado, és filho de quem?” Ele, se falasse, responderia: “sou filho de uma cleptocracia em que muito poucos beneficiam do dinheiro que deveria ser investido para melhorar as condições de vida de milhões. Queres receber-me na mesma?”

Ou quando lemos e ouvimos “verdades chocantes” tão eficazes no seu poder de indignação colectiva que não resistimos a repostá-las ad nauseam, não deveríamos fazer como aconselha a campanha contra a desinformação lançada pelas Nações Unidas, “pausar e verificar” e perguntar: “e tu, notícia tendenciosa sobre uma qualquer minoria, és filha de quem?” Ela, se falasse, responderia: “sou filha da agenda política de grupos anti-democráticos, que lançam milhares de fake news por dia, na esperança de manipular a opinião pública, minar a confiança nas instituições e ferir de morte o Estado de direito. Vais acreditar em mim, mesmo assim?”

Deveria ser uma obrigação ética preocuparmo-nos com a origem das coisas e não ignorar as red flags, que são sempre diferentes de pessoa para pessoa. Cada um tem as suas razões para mudar de hábitos e comportamentos, para preferir uns e preterir outros, para denunciar ou cancelar. Todas as razões são válidas, mas o importante é agir, o que nem sempre acontece pelos motivos mais óbvios. Nunca me hei-de esquecer de uma entrevista dada por Helen Mirren ao The Guardian em 2008 em que ela falava de forma despudorada da razão pela qual tinha deixado de consumir cocaína na sua juventude, por um motivo nada óbvio. É que a seu tempo, Dame Helen Mirren perguntou a uma grama de coca: “e tu, pozinho colombiano, és filho de quem?”. E o pó respondeu: “sou filho de um cartel liderado por um criminoso de guerra nazi chamado Klaus Barbie que fugiu para a América do Sul e é hoje em dia um barão da droga que faz milhões a vender-me a pessoas como tu. Vais snifar-me na mesma?” Foi remédio santo.

Se a Europa tivesse perguntado a tempo: “e tu, gás do qual tão perigosamente dependemos, és filho de quem?” e ouvido a resposta: “sou filho de um país liderado por um lunático com aspirações imperiais, que encontra no gás e no petróleo uma fonte constante de financiamento para realizar a sua missão de make Russia great again. Queres comprar-me na mesma?”, talvez não estivéssemos a viver esta guerra.

P.S.: a leitura desta crónica soa melhor acompanhada por:

Once upon a dream, de Lana del Rey (da banda sonora do filme Maleficent, de Robert Stromberg - 2014).

Que por sua vez é filha de: Once upon a dream, de Mary Costa (da banda sonora do filme Sleeping Beauty, de Walt Disney - 1959).

Que por sua vez é filha de: Op. 66: VI. Grande valse villagoise, de Pyotr Illych Tchaikovsky (do ballet The Sleeping Beauty - 1890).

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