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Diogo Faro

A COP26 foi um sucesso, estamos safos

Com as grandiosas promessas que saíram da COP26 e nas quais podemos confiar cegamente, mais a responsabilidade individual de cada um de nós, que tantas empresas e meios de comunicação tão bem apontam, podemos estar descansados que os nossos netos não terão de ir de botija de oxigénio para a escola.

12 Novembro 2021

Se há coisa de que podemos estar certos, é de que todas aquelas pessoas que lideram o mundo, ali reunidas na COP26, estão realmente empenhadas em salvar a humanidade da emergência climática. Incluindo, claro, o próprio Boris Johnson que, depois de lá fazer um discurso dramático sobre a urgência absoluta da reversão das alterações, optou por fazer Glasgow – Londres num jacto privado em vez de comboio (demorava umas imensas quatro horas e meia). É também nestes pequenos gestos simbólicos em que podemos depositar toda a nossa confiança em relação ao empenho dos nossos salvadores.

Claro que vejo muito cepticismo em muitas pessoas, noutras até um certo niilismo, como se não se pudesse confiar nos discursos ambientalistas dos líderes dos mesmos governos que planeiam aumentar a produção de combustíveis fósseis (relatório das Nações Unidas – Production Gap Report - publicado no mês passado). Temos de entender que claro que é urgente combater as alterações climáticas, mas não tão urgente quanto fazer crescer os lucros das petrolíferas, e quem não entende isto tem com certeza as prioridades trocadas. De que serve salvar o planeta se não houver bilionários para dele usufruir?

Também noto que este cepticismo – até alguma revolta – se vocaliza bastante na crítica ao classismo inerente às consequências das alterações climáticas. Se são as pessoas mais pobres do mundo, que por acaso são as que menos contribuem para a destruição do planeta, as que mais sofrem com as secas, inundações, ondas de calor e catástrofes que tais? É verdade que sim.

Mas também como dizem os liberais – e bem! – só é pobre quem quer porque ser pobre é um estado de espírito. Num mundo onde reina a meritocracia, é pouco compreensível que tanta gente viva com menos de $1 por dia. Se trabalharem mais (por exemplo nas fábricas têxteis do Bangladesh que alimentam a indústria da fast fashion que, por acaso, é das mais poluentes e destruidoras do planeta), vão ganhar mais dinheiro, logo, vão deixar de ser pobres, logo vão sofrer menos com as alterações climáticas. É assim que a economia (e o mundo) funciona. As pessoas também têm de se fazer à vida e não ficar só à espera que CEOs e líderes de governos resolvam todos os problemas do mundo por elas.

E isto também me faz lembrar que a grande responsabilidade no combate às alterações climáticas está em cada um de nós. Não nos podemos deixar levar por discursos extremistas (sempre de esquerda, óbvio) que só falam em taxar as grandes empresas poluidoras, em punir financeira e legalmente as infractoras, ou em revolucionar o sistema energético, quando sabemos perfeitamente que se comermos um pouco menos de carne, usarmos menos o carro, separarmos o papel do plástico e nunca nos esquecermos de fechar a torneia enquanto lavamos os dentes, então o planeta estará a caminho da salvação.

Ou seja, com as grandiosas promessas que saíram da COP26 e nas quais podemos confiar cegamente, mais a responsabilidade individual de cada um de nós, que tantas empresas e meios de comunicação tão bem apontam, podemos estar descansados que os nossos netos não terão de ir de botija de oxigénio para a escola.

O único senão que vejo no salvamento do planeta é que tantos homens adultos como o Tiago Dores, Miguel Sousa Tavares, Nuno Melo ou João Miguel Tavares, e mais uns quantos cronistas do Observador, vão deixar de ter razões para ficar histéricos com aquela jovem de 18 anos e gabardine amarela. Mas ficamos todos a torcer para que se mantenham firmes na reacção.

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