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Imagem capa crónica Paula Cardoso

Agarra, que é…polícia!

Sejamos capazes de reconhecer que persiste um policiamento de hostilidade nos espaços habitados ou frequentados por corpos racializados, e que o mesmo está longe de ser acrítico – é político. 

13 Julho 2021

Aconteceu de novo. Desta vez – mais uma – no concelho da Amadora. Musculados pela desfaçatez de quem pode tudo, um grupo de agentes da PSP entrou no bairro da Boba no passado dia 4 de Julho, e sem quê – mas sempre com um “porquê” e um “para quê” crónicos – começou a descarregar abusos de autoridade contra as crianças e os jovens negros que encontrou.

Crianças e jovens menores de idade que, a avaliar pela actuação policial, cometeram o grave “crime” de sair à rua “armados” da sua negritude, porém desprovidos de um documento de identificação. Um papel que nunca é suficientemente branco para descriminalizar o corpo negro, mas que talvez possa servir de atenuante de uma ‘animalidade selvagem’, indigna de outra realidade que não seja a da ‘salvação civilizadora branca’.

“Muitos agentes, em serviço de carro-patrulha e piquete, assumem que a maior parte do seu trabalho é andar “à caça dos mitras” e, em determinadas áreas suburbanas, “à caça aos pretos”. Os pretos representam para os polícias um certo tipo de mitra, mas amplamente desqualificados enquanto categoria mais genérica”.

Das palavras retiradas da pesquisa da antropóloga Susana Durão – reunida em “Patrulha e proximidade: uma etnografia da polícia em Lisboa” – para a praxe das operações policiais, assistimos a uma política de criminalização e marginalização da vida nos bairros das periferias.

De outra forma, como explicar que menores de idade sejam interpelados para identificação, e encostados à parede quais criminosos, apenas por estarem a conviver à porta de casa? Conseguimos imaginar um destino semelhante para algum grupo de crianças brancas com que nos cruzemos? Passa-nos sequer pela cabeça que, ocorrendo tamanha atrocidade, a mesma seja legitimada e normalizada a ponto de se continuar a repetir?

É exactamente isso que vemos acontecer com crianças negras, criminosamente policiadas, e, como escrevia lá atrás, sem quê, mas com um “porquê” e um “para quê” crónicos.

Comecemos pelo “porquê”: porque a polícia é uma instituição apodrecida à sombra de práticas racistas, que permitem a agentes da autoridade executar pessoas negras impunemente.  Basta evocar Kuku, Tony, Angoi, Tete, Corvo, Ptb…e tantos outros condenados à morte numa série de crimes policiais contra a sua-nossa humanidade.

Sejamos também capazes de reconhecer que persiste um policiamento de hostilidade nos espaços habitados ou frequentados por corpos racializados, e que o mesmo está longe de ser acrítico – é político. E assim chegamos ao “para quê”: para perpetuar um sistema de poder que é uma herança da Escravatura e do Colonialismo.

Desinvestir na polícia, privilegiar a acção

Os factos falam por mim, e estão amplamente documentados, como demonstram os investigadores Ana Rita Alves, Cristina Roldão e Pedro Varela. Vamos a eles: “As polícias, como as conhecemos, surgiram entre os séculos XVIII e XIX com o objectivo de suprimir revoltas de pessoas escravizadas, levantamentos nas (então) colónias e controlar a classe trabalhadora no espaço metropolitano. Por exemplo, a GNR tinha um importante papel na repressão de greves e protestos, que levou, entre muitos, ao assassinato impune de Catarina Eufémia; enquanto a PSP, através da sua Polícia de Choque, se destacou na repressão da luta pela democracia. Disto parece haver pouca memória, já que são consideradas instituições de defesa dos interesses do cidadão, e não do poder”.

A informação, extraída do artigo “E por cá, qual o debate sobre o movimento “Defund the Police”?, confirma o peso do racismo estrutural nas polícias, crime que vem sendo corajosamente denunciado pelo agente Manuel Morais.

“Há elementos das várias forças de segurança que exteriorizam as suas ideias racistas e xenófobas, usam tatuagens e simbologias "neonazis", pertencem a grupos assumidamente racistas, isto é do conhecimento de todos e infelizmente as organizações nada fazem para expurgar estes "tumores” do seio das forças de segurança. Pergunte-se à IGAI, à PSP, à GNR, à Guarda Prisional ou a qualquer outra força, o que fazem quando são detectadas estas situações? Nada, não fazem nada”.

E isso diz-nos quase tudo sobre a sociedade racista em que vivemos: dessa omissão ergueu-se um padrão criminoso – o dos encobrimentos de velhas práticas racistas, e da perpetuação da violência sobre corpos negros. Um padrão que nos desumaniza, e que nos obriga a fazer tudo para resistir a esse “nada”. Porque a inacção é um privilégio branco, e a nossa vida depende de toda a acção anti-racista que conseguirmos mobilizar. Até que todos possamos apenas ser. Humanos.

A autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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